11 de agosto: como a TV mudou os projetos residenciais

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As maratonas de séries disponíveis nos streamings, as transmissões esportivas ao vivo e até as partidas de videogame transformaram a televisão em um dos principais pontos de encontro dentro de casa. Embora a forma de consumir conteúdo tenha mudado profundamente nas últimas décadas, a tela continua a influenciar a maneira como os ambientes são planejados e ocupados.

Muito antes das Smart TVs reunirem plataformas de entretenimento em um único equipamento, a chegada da televisão ao Brasil, em 1950, já provocou uma mudança na configuração das residências. A sala de estar, tradicionalmente concebida para conversas, encontros familiares e momentos de descanso, ganhou um novo ponto focal. Sofás mudaram de posição, surgiram móveis específicos para acomodar os aparelhos e a arquitetura passou a considerar a presença dos aparelhos.

Comemorado em 11 de agosto, desde 1958, o Dia da Televisão homenageia a evolução e a importância desse equipamento no Brasil. A data faz referência ao dia da morte de Santa Clara de Assis, declarada a padroeira da televisão, e oferece um bom ponto de partida para observar como a evolução desse equipamento caminhou lado a lado com a arquitetura de interiores.

Ao longo de pouco mais de sete décadas, a tecnologia influenciou o layout das salas, impulsionou novas soluções de marcenaria, transformou os projetos de iluminação e redefiniu a forma de viver os espaços da casa.

Da roda de conversa para um novo ponto de atenção

Antes da televisão fazer parte da rotina das famílias, as salas de estar eram organizadas para favorecer a interação entre as pessoas. Sofás e poltronas voltavam-se uns para os outros, entregando uma configuração que estimulava conversas, leitura e momentos compartilhados.

11 de agosto: como a TV mudou os projetos residenciais

No projeto da casa que o arquiteto Paulo Tripoloni elaborou para ele e sua família, a TV está presente na sala de estar, logo na

entrada do imóvel. Entretando, ele afirma que o ambiente não ganhou uma dimensão expressiva, uma vez que o espaço preferido por

todos é a cozinha. Dessa forma, a TV está presente, mas longe de ser o item mais notado no ambiente | Fotos: JP Image

A chegada da TV mudou essa lógica. A tela passou a ocupar a parede principal da sala e, naturalmente, o mobiliário foi reorganizado para garantir conforto visual. Sofás ganharam um novo posicionamento e surgiram racks, estantes e painéis específicos para acomodar os aparelhos eletrônicos, enquanto o layout passou a considerar distâncias, circulação e diferentes ângulos de visualização.

Quando a infraestrutura passa a fazer parte do projeto

Ao incorporar a televisão a um grande painel de madeira, o projeto da arquiteta Patricia Penna demonstra como a arquitetura

passou a prever a infraestrutura ainda na fase de concepção, em que a solução esconde cabeamento e transforma a parede em uma composição limpa. Instalada no efeito ripado, o prolongamento amadeirado foi extensido para a realização do forro | Fotos: Leandro Moraes

A evolução tecnológica das televisões também redefiniu a maneira como os ambientes são planejados. Se antes os aparelhos exigiam móveis robustos para acomodar também os equipamentos de som, videocassetes, DVDs e uma grande quantidade de cabos aparentes, hoje o objetivo é exatamente o contrário: fazer com que toda essa infraestrutura praticamente desapareça.

Por isso, os projetos costumam prever, ainda na fase de obra, a localização da televisão, os pontos elétricos, conduítes para passagem de cabos, conexões de internet e suportes de fixação. Esse planejamento permite esconder toda a infraestrutura dentro das paredes ou da marcenaria, resultando em uma composição mais limpa e visualmente organizada.

Neste projeto da arquiteta Isabella Nalon, o rack ripado com abertura basculante mantém modem, tomadas e equipamentos eletrônicos

fora do campo de visão, facilita o acesso para manutenção e preserva a leveza da composição | Fotos: Julia Herman

Quando a instalação não foi prevista antecipadamente, painéis em madeira e móveis planejados tornam-se importantes aliados. Além de esconder a fiação, essas soluções acomodam equipamentos complementares e evitam intervenções maiores na alvenaria.

Essa preparação também amplia as possibilidades de instalação. Dependendo das características do ambiente, a televisão pode ser fixada diretamente na parede, instalada sobre painéis, compor suportes articulados ou integrar estruturas desenhadas sob medida para o projeto.

A televisão divide espaço com a arquitetura

Antes, a parede da televisão concentrava praticamente toda a atenção da sala. Hoje, a tendência é construir composições mais equilibradas, em que a tecnologia convive naturalmente com os demais elementos do ambiente.

À esquerda, o projeto do BMA Studio integra a televisão a uma marcenaria azul ladeada de nichos que reúnem plantas, objetos decorativos

e um espaço dedicado ao pet. A direita, o arquiteto Paulo Tripoloni aposta em uma estrutura mais rústica que combina marcenaria, serralheria

e o revestimento em tijolos aparentes, incorporando a TV ao conjunto | Fotos: Guilherme Pucci (esq.) e Maura Mello (dir.)

Em vez de dedicar uma parede exclusivamente ao aparelho, a marcenaria incorpora nichos, estantes, livros, obras de arte, plantas e objetos decorativos que distribuem o interesse visual pelo espaço. A televisão continua presente, mas deixa de monopolizar a composição.

Esse conceito acompanha uma característica marcante dos projetos contemporâneos, principalmente em apartamentos e plantas integradas. Em grande parte das residências, a sala de estar também é o espaço destinado à televisão, reunindo diferentes funções em um único ambiente.

Por isso, o desafio da arquitetura deixou o de elaborar uma sala voltada exclusivamente para assistir TV e passou a ser entregar um espaço capaz de acomodar o entretenimento sem abrir mão do conforto e da convivência. O equipamento passa a ser tratado como mais um elemento da composição arquitetônica — importante, mas longe de ser o protagonista.

Neste projeto assinado pelo arquiteto Bruno Moraes, em seu apartamento, a TV compartilha a área do painel com com

livros, obras de arte, objetos decorativos e instrumentos musicais, permitindo que a personalidade dele e de sua esposa

seja revelada nos detalhes | Projeto BMA Studio | Foto: Guilherme Pucci

Conforto é resultado de um projeto bem resolvido

Assistir televisão envolve, além de escolher uma tela de grandes dimensões, a comodidade visual e a ergonomia que começa ainda na concepção do ambiente.

O dimensionamento da televisão deve respeitar as proporções da parede e do espaço disponível, evitando que o equipamento se torne desproporcional em relação ao restante da composição. Da mesma forma, a instalação deve considerar uma altura que favoreça o campo de visão de quem está sentado, reduzindo esforços durante longos períodos de uso.

Em uma sala de estar compacta, a arquiteta Daniela Funari a TV inserida no vão entre o rack e a prateleira não compete com a

conivência proposta com o posicionamento do sofá e da dupla de poltronas | Fotos: Julia Novoa

A distribuição do mobiliário segue o mesmo princípio. Sofás confortáveis, poltronas alocadas de forma estratégica e uma circulação bem planejada permitem que o ambiente funcione tanto para assistir a um filme quanto para receber visitas ou simplesmente aproveitar momentos de descanso.

Ao integrar o painel em porcelanato aos ripados em madeira e ao projeto luminotécnico, a arquiteta Cristiane Schiavoni cria uma linha

contínua de iluminação que percorre a parede da televisão, acompanha o teto e chega até a área do sofá | Fotos: Carlos Piratininga

A iluminação também exerce papel decisivo. Projetos luminotécnicos costumam privilegiar luz indireta e temperaturas de cor mais quentes, entre 2.700 K e 3.000 K, propiciando uma atmosfera acolhedora e reduzindo reflexos sobre a tela. Recursos como dimerização e automação oferecem flexibilidade para adaptar a intensidade da iluminação conforme a atividade realizada, enquanto perfis de LED, arandelas e luminárias de apoio ajudam a valorizar texturas, revestimentos e elementos decorativos sem comprometer o conforto visual.

A TV também conquistou os dormitórios

Mesmo em dormitórios com dimensões reduzidas, a TV pode ser incorporada ao projeto sem comprometer a circulação nem a organização do ambiente, como demonstra a arquiteta Juliana Faria. Na parede oposta à cama, ela foi implantada acima da penteadeira| Fotos: Gustavo Awad

A presença da televisão extrapolou as áreas sociais da casa e passou a fazer parte dos dormitórios, exigindo soluções específicas para garantir conforto e integração estética. Nesses ambientes, a posição da tela deve considerar tanto quem assiste deitado, quanto quem utiliza a cabeceira como apoio para leitura ou momentos de descanso. Quando o alinhamento com a cama não é possível, suportes articulados ampliam a mobilidade do aparelho e tornam a visualização mais confortável.

Assim como acontece nas salas de estar, painéis planejados facilitam a passagem da infraestrutura, escondem a fiação e contribuem para uma composição visual mais organizada. O tamanho da televisão também acompanha as dimensões do dormitório, preservando o equilíbrio entre os diferentes elementos do ambiente.

Pensado para ampliar as possibilidades de uso em um imóvel compacto, o móvel desenvolvido pelo escritório ResiliArt Arquitetura

abriga uma televisão com suporte giratório, permitindo que o equipamento atenda tanto o dormitório quanto a sala | Fotos: Kelly Quieroz

 

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