A recente trajetória de queda do dólar frente ao real reacendeu uma velha discussão entre economistas, empresários e investidores: estamos diante de uma mudança estrutural ou apenas de mais um movimento cíclico do mercado global?

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Embora oscilações cambiais façam parte da dinâmica natural das economias abertas, o atual recuo da moeda americana revela uma combinação relevante de fatores e, mais importante, traz implicações estratégicas para empresas brasileiras.

No cenário internacional, o principal vetor tem sido a revisão das expectativas em torno da política monetária dos Estados Unidos. Com sinais de desaceleração econômica e inflação mais comportada, o mercado passou a trabalhar com a possibilidade de flexibilização dos juros. Quando isso acontece, o capital global tende a buscar destinos com maior potencial de retorno.

Dólar e rotação

E o Brasil, tradicional beneficiário desse tipo de rotação, volta ao radar.

dolar

O diferencial de juros ainda elevado, somado ao tamanho do mercado interno e à liquidez dos ativos financeiros, cria uma equação atraente para investidores estrangeiros. O resultado é conhecido: entrada de dólares, valorização do real e alívio temporário sobre pressões inflacionárias.

Mas interpretar esse movimento como uma demonstração inequívoca de confiança seria um erro estratégico.

Para André Charone, contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais, o comportamento do câmbio deve ser lido com maturidade analítica especialmente por líderes empresariais.

“O câmbio é menos um retrato da economia e mais um termômetro das expectativas globais. Parte relevante dessa queda está associada à realocação de capital internacional. Isso melhora o ambiente financeiro no curto prazo, mas não elimina os desafios estruturais do país”, afirma.

Na prática, o dólar mais baixo produz efeitos assimétricos entre os setores. Empresas dependentes de importações ganham margem, reduzem custos e ampliam sua previsibilidade operacional. Já os exportadores enfrentam compressão de receitas e, em alguns casos, perda de competitividade.

Esse tipo de deslocamento exige respostas rápidas, e estratégicas.

“Negócios expostos ao câmbio não deveriam tentar prever o dólar, mas se preparar para ele. Estruturas de hedge, diversificação de fornecedores e planejamento financeiro sofisticado deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos de sobrevivência”, explica Charone.

Outro ponto crucial é evitar o erro recorrente de transformar movimentos conjunturais em premissas permanentes. O histórico recente mostra que reversões cambiais podem ser abruptas, principalmente quando motivadas por mudanças na percepção de risco global.

Em um ambiente de elevada mobilidade de capitais, moedas emergentes funcionam quase como ativos financeiros, sensíveis ao humor dos mercados e menos ancoradas em transformações estruturais de longo prazo.

Isso não significa que a queda do dólar seja irrelevante. Pelo contrário: ela cria uma janela de oportunidade.

Empresas com visão estratégica podem aproveitar o momento para antecipar importações, renegociar contratos internacionais, revisar estruturas de custo e até acelerar projetos de modernização dependentes de tecnologia estrangeira.

O erro seria confundir oportunidade com estabilidade.

“O empresário que interpreta o dólar mais baixo como uma nova normalidade corre um risco desnecessário. O câmbio é, por natureza, volátil, e continuará sendo enquanto o mundo operar sob ciclos financeiros cada vez mais rápidos”, diz Charone.

No fundo, o movimento recente reforça uma das principais lições da economia contemporânea: competitividade não pode depender da taxa de câmbio. Países e empresas resilientes são aqueles capazes de prosperar tanto com o dólar alto quanto com ele mais baixo.

A pergunta, portanto, não é apenas por que o dólar caiu, mas quem está preparado para transformar esse movimento em vantagem estratégica antes que o ciclo vire novamente.

Sobre André Charone

André Charone é contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA).

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