Brasileiro tem que ficar alerta- A conveniência do uso é óbvia: um aplicativo de IA que desvenda causas para sintomas físicos ou um chat de IA generativa que responde em segundos se aquela dor é “normal” ou interpreta exames. Esse comportamento já foi amplamente adotado entre os brasileiros. O problema é que, em saúde, a mesma tecnologia que acelera decisões também pode simplificar demais ou exagerar um quadro clínico, além de abrir uma fresta para a exposição de dados sensíveis.
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É o que aponta o engenheiro de software com ampla experiência no Vale do Silício (EUA), Gabriel Barros. Ele recomenda muita cautela aos pacientes que querem usar ferramentas de IA para cuidar da própria saúde.
Gabriel trabalhou por 12 anos no Yahoo Internacional e liderou um projeto de isolamento de dados sensíveis em parceria com o Google e a Microsoft. Seu alerta se baseia na observação de que IAs não avaliam um paciente como um médico faz, elas respondem com base em padrões aprendidos a partir de grandes volumes de dados. “Por isso, as IAs tendem a produzir respostas genéricas e repetitivas ou respostas plausíveis, mas incorretas”, argumenta o engenheiro, que também é cofundador da healthtech MYME. Quanto mais uma informação é repetida, mais ela será usada pela IA, mesmo que ela seja incorreta.

Pesquisas recentes também corroboram esse ponto de vista: o volume Inteligência Artificial Generativa em Saúde e Medicina (2025), disponível na National Academy of Medicine (NIH), apresenta os riscos do uso dessa tecnologia e os principais incluem privacidade de dados, viés, limitação de “raciocínio” e alucinações. Um artigo publicado na revista Nature, também de 2025, revela que a acurácia média de modelos de IA para diagnósticos é de 52,1%, um desempenho significativamente inferior ao de médicos especialistas. A análise incluiu 83 estudos publicados entre junho de 2018 e junho de 2024.
Gabriel também chama atenção para o ambiente em que esses dados são armazenados. “Quando você coloca exames, sintomas e outras informações pessoais em qualquer aplicativo ou chat, está criando um repositório extremamente sensível. Nem todas as plataformas têm estrutura adequada de segurança, controle de acesso ou governança de dados, ainda mais em um cenário em que grandes empresas de tecnologia já sinalizam a adoção de modelos com publicidade, o que reforça a necessidade de transparência sobre como esses dados podem ser utilizados “, ressalta. “O acompanhamento e diagnóstico médico continua sendo indispensável. E seus dados de saúde devem estar em ambientes seguros e especializados”, afirma.
Já existem ferramentas gratuitas para armazenamento de histórico médico que garantem segurança de dados, como a plataforma da MYME. É possível registrar sintomas, exames, consultas, prescrições médicas, medicação, vacinação e outras informações pertinentes sobre cada pessoa. O paciente consegue reunir os prontuários dos hospitais, clínicas e outras unidades de saúde e apresentá-los a qualquer profissional ou instituição do setor.

Ferramentas como essa não disputam espaço com o Meu SUS Digital, plataforma do Ministério da Saúde que funciona como prontuário eletrônico do Serviço Único de Saúde (SUS); ela é complementar. “O Meu SUS traz informações da rede pública e agora também permite o agendamento de consultas [inicialmente para 500 municípios brasileiros]. Enquanto uma plataforma de armazenamento de dados de saúde agrega o que o paciente tem em papéis, imagens e outros arquivos guardados consigo, além de dados do cotidiano que o SUS não registra”, diferencia Gabriel.
O novo Dr. Google ficou mais perigoso pro Brasileiro
Até pouco tempo atrás, a busca por sintomas no Google já alimentava diagnósticos apressados e conclusões sem contexto clínico. Agora, esse hábito de busca na internet ganhou uma camada de aparente sofisticação: em vez de digitar “dor no peito”, muita gente envia exames completos, histórico médico e até CPF para chats de IA generativa, como se a tecnologia pudesse oferecer uma leitura precisa e segura da própria saúde. O risco, porém, é ainda maior, porque essa sensação de exatidão costuma vir acompanhada de pouca transparência sobre o destino dos dados e uma resposta automatizada que pode ser imprecisa, mas que transmite muita confiança a quem lê.
Gabriel Barros alerta que o problema não está só na interpretação do paciente, mas também no ambiente em que essas informações são inseridas. “Quando você coloca exames, sintomas e outras informações pessoais em qualquer aplicativo ou chat, está criando um repositório extremamente sensível”, afirma. Como o uso da IA ainda não foi regulamentado no Brasil, muitos usuários não sabem como essas plataformas tratam, armazenam ou reaproveitam o que recebem. E, na prática, quase ninguém lê políticas de privacidade antes de inserir qualquer documento, e os de saúde são um dos tipos mais sensíveis que existem. Todo cuidado é pouco.
Sobre a MYME – É uma healthtech brasileira com uma plataforma gratuita que centraliza o histórico de saúde do usuário ou dependente. Reúne as informações de exames, vacinação, medicação e registros clínicos em uma linha do tempo compartilhável com cuidadores, profissionais e instituições de saúde. Fundada em 2025 pelo empreendedor em série Lucas Santiago e o engenheiro de software Gabriel Barros, a startup surge para enfrentar a fragmentação de dados médicos pessoais, com foco em segurança e continuidade dos cuidados com a saúde. Estruturada como uma Sociedade de Benefício Público (PBC), a MYME combina modelo de negócio com propósito social.
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