Antes de culpar a tela— Há algum tempo, as telas foram eleitas uma espécie de novo vilão da infância. Evidentemente, existem razões para preocupação. Uma criança precisa de terra no pé, água na mão, joelho ralado, árvore, quintal, parque, bicicleta, bola, corda, esconde-esconde. Precisa conviver com outras crianças, aprender a negociar a vez, suportar uma pequena frustração, inventar uma regra, desobedecer à regra inventada cinco minutos antes e depois criar outra melhor. Precisa também de uma coisa que estamos quase extinguindo da infância: tédio.

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Aquele pequeno vazio em que ninguém aparece para dizer o que fazer. Não há professora conduzindo, recreacionista, aplicativo sugerindo nem adulto organizando uma dinâmica. Há apenas uma criança olhando para outra criança. E então, milagrosamente, alguma coisa começa: uma pedra vira moeda, uma árvore vira castelo, um pedaço de madeira vira espada, varinha, remo ou qualquer outra coisa que duas crianças decidam que ele seja.

Por isso, sempre me incomodaram um pouco aqueles recreios excessivamente dirigidos. É claro que há momentos para propostas, jogos e intervenções. Mas, se até a brincadeira precisar permanentemente de um adulto ministrando, estaremos formando crianças que talvez saibam participar de atividades, mas já não saibam inventá-las. Tudo isso me parece bastante claro.

O que talvez seja menos confortável admitir é que o problema das telas pode estar um pouco mais embaixo. Talvez tenhamos começado a demonizá-las porque é mais fácil discutir o aparelho do que discutir a nossa disponibilidade para estar com as crianças. Tenho a impressão de que muitos adultos foram perdendo o interesse pela convivência com a infância. Não necessariamente o amor pelos filhos. Amor é outra coisa. Estou falando de convivência: sentar junto, escutar uma história que demora mais do que gostaríamos, assistir pela décima vez a uma demonstração absolutamente extraordinária de uma cambalhota bastante comum, responder a uma pergunta que começa com “por quê?” sabendo que ela será imediatamente seguida por outros sete “por quês?”. Conviver com uma criança exige uma relação diferente com o tempo. E talvez nós, adultos, estejamos cada vez piores nisso.

Quando meu filho era pequeno, havia telas em casa. Naturalmente havia menos do que hoje, e eu procurava cuidar do tempo e daquilo que ele assistia. Mas muitas vezes eu assistia junto. Não porque eu fosse um pai exemplar. Também tinha pressa, trabalho, telefone tocando, cansaço e todas as solicitações que qualquer adulto conhece. Mas havia ali alguma coisa que hoje me parece essencial: mediação. A tela não precisava substituir o adulto; podia ser compartilhada com ele. Essa diferença talvez seja muito maior do que pareça.

Porque uma criança diante de uma tela e uma criança diante de uma tela acompanhada por um adulto não estão necessariamente vivendo a mesma experiência. Uma pergunta transforma a cena: “Você viu o que aconteceu?”, “Por que será que ele fez isso?”, “Você sabia que o guepardo corre mais de cem quilômetros por hora?”. De repente, aquilo que poderia ser apenas consumo ganha linguagem, comparação, curiosidade, vínculo.

É por isso que tenho alguma dificuldade com certos discursos absolutos sobre a tecnologia na infância. Uma escola não deveria, evidentemente, transformar um dia de chuva em uma desculpa para estacionar vinte crianças diante de um desenho enquanto os adultos resolvem outras coisas. Há livros, histórias, jogos, tintas, papéis, massinha, música, teatro, construção. A infância, especialmente nos primeiros anos, precisa desesperadamente de artesania. Precisa da mão, do corpo, da matéria.

Mas imagine outra situação. As crianças estão estudando os animais da savana africana. A professora contou histórias. A bibliotecária apresentou um livro impresso daqueles que ainda permitem que uma criança descubra o mundo virando páginas. A turma desenhou, pintou, dramatizou, construiu animais, mediu pegadas imaginárias no chão. E então alguém pergunta: “Professora, como é um guepardo correndo de verdade?”. Vamos responder que a tela é proibida? Talvez cinco minutos de um documentário sejam justamente a janela que faltava para aquela investigação. A criança dificilmente verá um guepardo correndo diante dela, mas pode vê-lo ali, em movimento, entender sua velocidade, seu corpo, sua forma de caçar. A tecnologia, naquele instante, não diminuiu a experiência. Ampliou.

O mesmo vale para tantas outras coisas. Uma criança pode ouvir histórias sobre o folclore, fabricar um brinquedo artesanal, pular amarelinha, brincar de pé de lata, construir um pião, ouvir causos e depois assistir a uma animação bem feita sobre aqueles mesmos personagens. Por que uma experiência precisaria anular a outra? Talvez nosso erro esteja em pensar sempre em substituição: tela ou livro, tela ou natureza, tela ou brincadeira, tela ou convivência. Quando a questão talvez seja outra: tela depois do livro, junto da brincadeira, a serviço da curiosidade e mediada pela convivência.

Há ainda uma contradição curiosa. Estamos educando crianças que provavelmente viverão em um mundo ainda mais tecnológico do que o nosso. Trabalharão com ferramentas que talvez sequer tenham sido inventadas. Precisarão criar, selecionar informações, compreender imagens, vídeos, inteligência artificial, linguagens digitais e outras tantas coisas que ainda não sabemos nomear. E a nossa preparação para isso seria simplesmente mantê-las afastadas de qualquer tela até determinado aniversário? Há um hiato aí. Não se aprende a usar tecnologia de maneira inteligente apenas chegando um dia diante dela. Essa aprendizagem também precisa ser construída, com limites, idade adequada, conteúdo adequado, tempo adequado e, principalmente, com adultos adequadamente presentes.

Talvez esteja aí uma das partes mais incômodas dessa conversa. Porque proibir é relativamente fácil. Medir minutos também. Trinta minutos, quarenta, uma hora. O cronômetro é objetivo e nos dá uma agradável sensação de controle. Mais difícil é perguntar: como está a vida dessa criança quando a tela está desligada? Ela brinca? Tem amigos? Corre? Conversa? Fica entediada? Vai ao parque? Encontra árvores? Mexe com terra? Inventa coisas? Tem adultos que falam com ela sem olhar o próprio celular a cada trinta segundos?

Porque talvez seja uma cena bastante contemporânea esta: o adulto retirando a tela da criança para protegê-la das telas enquanto continua deslizando o dedo na própria tela. Aí o problema já não está exatamente no aparelho. O buraco é mais embaixo.

Há crianças que precisam de menos tela, sem dúvida. Mas talvez haja também muitas crianças precisando de mais adultos: adultos disponíveis, curiosos, capazes de compartilhar aquilo que aparece na tela e também de desligá-la para sair de casa; adultos que levem uma criança para ver uma árvore e depois pesquisem com ela o nome daquela árvore, que contem uma história e depois procurem juntos onde aquele lugar fica no mapa, que assistam a um guepardo correndo e, cinco minutos depois, digam: “Agora chega. Vamos ver quem corre mais rápido até aquela árvore?”.

Talvez seja menos confortável do que simplesmente demonizar as telas. Mas educação quase nunca acontece pelo caminho mais confortável. A tecnologia não precisa ocupar o lugar da infância. Precisa encontrar seu lugar dentro dela. E esse lugar não será definido apenas por aplicativos, pediatras, escolas ou cronômetros. Será definido, sobretudo, pela qualidade da presença dos adultos que estão ao redor da criança.

Porque, antes de perguntar quanto tempo nossos filhos passam diante das telas, talvez seja importante fazer uma pergunta um pouco mais difícil: quanto tempo nós ainda conseguimos passar verdadeiramente diante deles?

 

Antes

Antes de culpar

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