7 mitos e verdades sobre o Mieloma Múltiplo
Especialista esclarece dúvidas sobre diagnóstico, sintomas e avanços no tratamento do câncer hematológico
Apesar de ser um tipo de câncer hematológico, o mieloma múltiplo ainda é pouco conhecido pela população. Por conta disso, pode até mesmo ser confundido com outras doenças. Marcado por sintomas muitas vezes inespecíficos, o diagnóstico costuma ser tardio, o que reforça a importância da informação.
Para esclarecer os principais pontos sobre a condição, a hematologista Camila Gonzaga, médica do Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), explica o que é mito e o que é verdade quando o assunto é Mieloma Múltiplo.
1. Mieloma Múltiplo é um tipo de leucemia.
Mito. “O mieloma múltiplo é uma doença diferente da leucemia, embora ambos sejam cânceres hematológicos (do sangue)”, explica a médica. Segundo ela, o Mieloma é um câncer de células plasmáticas — células B maduras responsáveis pela produção de anticorpos — que se proliferam na medula óssea e podem causar complicações como hipercalcemia, insuficiência renal, anemia e lesões ósseas líticas.
Já as leucemias envolvem células sanguíneas em diferentes estágios de desenvolvimento, que também se proliferam na medula óssea, mas circulam no sangue periférico.
2. O mieloma múltiplo costuma ser diagnosticado precocemente.
Mito. De acordo com a especialista, o diagnóstico tardio é comum justamente por conta dos sintomas pouco específicos. “O diagnóstico tardio acontece devido a sintomas inespecíficos e vagos que se assemelham a condições benignas comuns, levando tanto pacientes quanto médicos a não suspeitarem inicialmente da doença”, afirma.
A dor óssea, especialmente na região lombar, é o sintoma inicial mais comum, presente em 47% dos pacientes, mas frequentemente confundida com osteoporose, artrose ou outros problemas musculoesqueléticos. “Em um estudo, 52% dos pacientes receberam outros diagnósticos antes do mieloma, sendo distúrbios musculoesqueléticos os mais comuns (47,8%)”, destaca.
Outro fator é a investigação incompleta, sem a verificação dos critérios CRAB — hipercalcemia, insuficiência renal, anemia e lesões ósseas — fundamentais para o diagnóstico.
3. Existe um perfil mais comum de paciente com mieloma múltiplo.
Verdade. “O perfil mais comum de paciente acometido pelo Mieloma Múltiplo é de indivíduos idosos, com idade mediana ao diagnóstico de 69-70 anos”, explica Dra. Camila. Cerca de 63% dos pacientes têm mais de 65 anos no momento do diagnóstico. A doença também é mais frequente em homens e apresenta incidência significativamente maior em pessoas negras.
4. Dor óssea pode ser um sinal de alerta para a doença.
Verdade. A dor óssea é um dos principais sinais de atenção. “A dor óssea esteve presente em 58% dos pacientes de um estudo clínico e é um sinal de alerta”, afirma a hematologista. Além disso, o Mieloma Múltiplo pode se manifestar com sintomas inespecíficos como náusea, vômito, mal-estar, fraqueza, infecções recorrentes e perda de peso. Em alguns casos, o paciente pode ser assintomático, com diagnóstico feito incidentalmente por exames laboratoriais alterados.
Entre as manifestações mais frequentes estão anemia (73%), lesões ósseas líticas (79%), elevação da creatinina sérica (19%), hipercalcemia (13%), leucopenia (20%) e trombocitopenia (5%).
5. O diagnóstico depende de exames específicos.
Verdade. Segundo a especialista, a confirmação da doença exige uma investigação detalhada. “Para confirmação diagnóstica é fundamental a avaliação laboratorial, com presença de proteína monoclonal e critérios do CRAB, além de biópsia de medula óssea com análise citogenética e exames de imagem de corpo inteiro, como tomografia, PET-CT ou ressonância magnética”, explica.
6. O tratamento evoluiu nos últimos anos.
Verdade. “O tratamento do Mieloma Múltiplo evoluiu significativamente”, afirma a hematologista. Os pacientes são inicialmente avaliados quanto à possibilidade de transplante de medula óssea para consolidação de resposta. A partir disso, são definidos protocolos que incluem terapia-alvo, agentes imunomoduladores, imunoterapia e corticoides, sendo que a maioria dos esquemas de indução já não envolve quimioterapia.
7. O mieloma múltiplo tem cura.
Mito (mas pode entrar em remissão). Embora ainda não se fale em cura na maioria dos casos, a doença pode ser controlada de forma eficaz. “O mieloma múltiplo pode entrar em remissão, incluindo remissão completa e até mesmo negatividade de doença residual mínima (MRD)”, destaca a médica. Com as terapias modernas, uma parcela significativa dos pacientes alcança respostas profundas e duradouras. “Mais de 60-70% dos pacientes recém-diagnosticados alcançam resposta completa e negatividade de MRD”, finaliza.

Doutora Camila Gonzaga, hematologista
Sobre o Instituto de Oncologia de Sorocaba
Referência há 30 anos em quimioterapias e infusões oncológicas e não oncológicas, o Instituto de Oncologia de Sorocaba (IOS), junto com o Hospital Evangélico de Sorocaba, integra o hub Sorocaba da Hospital Care, uma das maiores administradoras de serviços de saúde do país.
Avanços no tratamento: a chance de estar vivo cinco anos após o diagnóstico passou de 32% para 62%
Avanços nas opções terapêuticas e experiências de pacientes endossam dado do relatório anual “Cancer Statistics 2026”, divulgado pela American Cancer Society
Com os avanços da pesquisa científica nas últimas décadas, o tratamento do mieloma múltiplo passou por uma transformação significativa, ampliando as opções terapêuticas e proporcionando mais qualidade de vida aos pacientes, além de maior controle da doença. Até a década de 1970, a sobrevida mediana de pacientes diagnosticados com mieloma múltiplo era de cerca de 20 meses, com terapias baseadas exclusivamente em quimioterapia. Hoje, esse cenário é bastante diferente. Dados recentes do relatório anual Cancer Statistics 2026, da American Cancer Society, indicam que a taxa de sobrevida em cinco anos mais que dobrou, passando de 32% para 62%.
Ao longo dos anos, a introdução do transplante autólogo de medula óssea e de terapias inovadoras, como a imunoterapia, revolucionaram o tratamento da doença ao possibilitar respostas mais profundas e duradouras.
Entre os principais avanços, destacam-se:
- Daratumumabe (anti-CD38): utilizado em terapias quádruplas na primeira linha de tratamento, pode proporcionar até 17 anos sem progressão da doença;
- Anticorpos biespecíficos: o teclistamabe (anti-BCMA), em monoterapia, oferece cerca de dois anos sem avanço da doença, enquanto o talquetamabe (anti-GPRC5D) apresenta mais de três anos de sobrevida global, ampliando as alternativas para pacientes recaídos ou refratários;
- Terapia CAR-T (CARVYKTI®/ciltacabtagene autoleucel): desenvolvida a partir das próprias células do paciente modificadas geneticamente, administrada em dose única, tem demonstrado remissões duradouras por pelo menos cinco anos, com possibilidade de pacientes permanecerem livres de tratamento;
- Novas combinações terapêuticas: estudos como o MajesTEC-3 mostram que a combinação de teclistamabe e daratumumabe pode reduzir em 83% o risco de progressão ou morte em pacientes em segunda linha de tratamento.
A história da paciente Eliana Mafra, de 60 anos, ilustra esse novo momento. Diagnosticada em 2023, ela realizou transplante autólogo como primeira linha de tratamento. Após uma recaída cerca de um ano e meio depois, recebeu terapia CAR-T em dose única, em julho de 2025. Desde então, segue em remissão, sem necessidade de tratamento contínuo. Atualmente, mantém uma rotina ativa, com trabalho e prática de exercícios físicos.
A discussão sobre o mieloma múltiplo ganha ainda mais relevância em março, durante o Março Borgonha, período dedicado à conscientização sobre esse tipo de câncer hematológico. A campanha “Múltiplas Chances pra Vida”, da Johnson & Johnson, reforça a importância da informação de qualidade e do diagnóstico precoce. A iniciativa conta com a participação da jornalista e apresentadora Astrid Fontenelle em conversas com especialistas e pacientes, abordando uma jornada que vai além do diagnóstico.
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