Com 91 milhões de usuários no país e queda de até 30% no alcance orgânico, comerciantes de Americana, Santa Bárbara, Nova Odessa e Sumaré buscam alternativas para não sumir do feed

Quem abre o TikTok hoje, na região metropolitana de Campinas ou em qualquer outro lugar do Brasil, encontra um aplicativo bem diferente do que existia há dois anos.

O algoritmo mudou, a competição por atenção ficou maior e o que antes rendia milhares de visualizações com pouca publicação agora exige estratégia, frequência e, em muitos casos, ferramentas extras de apoio.

Para o pequeno negócio de Americana ou para o criador de conteúdo de Sumaré que começou a investir na rede em 2023, o cenário virou um problema concreto: a audiência está lá, mas a entrega caiu.

Os números explicam o tamanho da preocupação. O Brasil já contabiliza mais de 91 milhões de usuários ativos no TikTok em 2025, conforme o relatório DataReportal, ficando atrás apenas dos Estados Unidos e da Indonésia em volume de público. No primeiro trimestre do ano, o aplicativo liderou os downloads no país com mais de 20 milhões de novas instalações.

Em paralelo, levantamentos recentes apontam queda média de 18% no tempo de visualização por vídeo e redução de até 30% no alcance orgânico das contas que mantiveram os mesmos formatos do ano anterior. A audiência cresceu, mas o espaço dentro do feed ficou mais disputado.

A região metropolitana de Campinas no centro da virada digital

A RMC acompanha o movimento nacional, com a particularidade de ter um comércio físico forte que ainda chega aos canais digitais com atraso.

A Prefeitura de Americana lançou em agosto de 2025 o programa Vitrine Digital, em parceria com Sebrae-SP e a Associação Comercial e Industrial de Americana, exatamente para capacitar lojistas que possuem ponto físico mas ainda não trabalham com vendas online.

O ciclo de aulas reúne dois grupos, iniciantes no digital e quem já atua na internet, e oferece consultoria personalizada do Sebrae no encerramento.

A iniciativa joga luz sobre uma realidade que se repete em Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa e Sumaré. O comerciante tem cadastro em rede social, posta com regularidade quando lembra, mas não consegue traduzir a presença em vendas.

O secretário de Desenvolvimento Econômico de Americana, Rafael de Barros, foi direto ao apresentar o programa: a venda digital cresce todo ano e o caminho não tem volta, o que falta é o comércio se tornar multicanal de fato.

O TikTok aparece no centro dessa equação por dois motivos. O primeiro é a chegada oficial do TikTok Shop ao Brasil em maio de 2025, que transformou o aplicativo em canal direto de vendas com volumes que saltaram de 1 milhão de dólares em maio para mais de 46 milhões em agosto, segundo dados da Tabcut. O segundo é o tempo médio mensal que cada usuário brasileiro passa no aplicativo, hoje na casa das 30 horas.

Por que o alcance caiu mesmo para quem posta com frequência

Criadores e pequenos negócios da região relatam o mesmo padrão: vídeos que rendiam dezenas de milhares de visualizações em 2023 hoje mal passam dos primeiros mil. A explicação está em três frentes simultâneas.

A primeira é a integração do TikTok Shop, que reorganizou a entrega do feed para priorizar conteúdos com potencial comercial. A segunda é o aumento da concorrência, com mais marcas, agências e criadores disputando o mesmo espaço.

A terceira é a mudança no comportamento do usuário, que hoje faz busca dentro da plataforma em vez de só rolar o feed: um em cada quatro usuários inicia uma busca dentro do aplicativo nos primeiros 30 segundos após abrir, conforme dados apresentados no TikTok World Brasil 2025.

O efeito prático para quem produz conteúdo é simples de descrever e difícil de resolver. Não basta postar mais. É preciso postar melhor, com gancho nos primeiros segundos, retenção alta até o final, descrição que ative a busca interna e sinais sociais consistentes (curtidas, comentários e compartilhamentos) logo nas primeiras horas após a publicação.

Sem esses sinais iniciais, o vídeo não passa pelos primeiros filtros do algoritmo e fica preso em uma audiência muito menor do que poderia alcançar.

É exatamente nesse ponto que muitos criadores da região passaram a recorrer a estratégias complementares para destravar o alcance dos primeiros vídeos.

Pequenos lojistas que estão começando agora, sem rede consolidada de seguidores, têm buscado serviços para comprar curtidas TikTok barato como forma de gerar prova social inicial e estimular o algoritmo a entregar o conteúdo para um público mais amplo.

A lógica é a mesma de uma loja física vazia que afasta clientes: vídeo sem interação visível tende a ser ignorado pelo próximo usuário que o vê. Esse uso, quando combinado com produção de conteúdo consistente, funciona como gatilho para a fase em que o conteúdo passa a se sustentar pelo engajamento orgânico.

O que tem funcionado para criadores locais

Um levantamento da consultoria Sociei, divulgado em 2025, acompanhou criadores brasileiros que conseguiram reverter a queda de engajamento e identificou padrões claros.

Eles trabalharam com nichos bem definidos, lives e duetos com mais frequência, monitoramento próximo das métricas e integração natural do TikTok Shop quando faziam sentido. O grupo registrou crescimento médio de 40% no alcance e 35% nas interações em relação ao período anterior à mudança de estratégia.

A pesquisa do Opinion Box sobre o comportamento do usuário brasileiro reforça que a oportunidade existe para quem consegue se ajustar. Quase metade dos usuários (49%) acessa o TikTok para descobrir coisas novas, 42% para se informar e 50% segue marcas e empresas dentro do aplicativo.

Mais relevante para o varejo: 35% dos usuários já foram convencidos a comprar um produto depois de assistir a um conteúdo na plataforma. O público está pronto para comprar, basta ser encontrado.

A criação visual também ganhou peso na disputa pela atenção. Capa de vídeo, miniatura no perfil, layout das descrições e identidade nos comentários fazem diferença em uma rede onde o usuário decide nos primeiros segundos se vai parar ou continuar rolando.

Pequenos detalhes de apresentação, como a tipografia usada na bio do perfil ou no texto sobreposto aos vídeos, ajudam a criar uma identidade reconhecível em meio à enxurrada de conteúdo.

Não por acaso, ferramentas que permitem personalizar texto se popularizaram entre criadores e gestores de redes sociais nos últimos meses, com sites que oferecem fontes de letras para copiar sendo usados para diferenciar bios, destacar legendas e dar acabamento a posts que precisam parecer profissionais sem custo de design.

A integração com Instagram, Reels e venda direta

Um detalhe que costuma passar despercebido: o conteúdo bem trabalhado no TikTok costuma viajar para outras redes. O mesmo vídeo pode ir para Instagram Reels, YouTube Shorts e Kwai com pequenas adaptações, e a regra de retenção é parecida em todas as plataformas.

Para o pequeno comerciante de Americana ou de Santa Bárbara que produz com pouco tempo, isso significa multiplicar o retorno de cada produção. Um único vídeo bem editado, com texto sobreposto, gancho forte e finalização clara pode render em três ou quatro canais diferentes na mesma semana.

A integração com vendas é o passo seguinte. O TikTok Shop, ainda em fase de consolidação no Brasil, projeta ocupar até 9% do e-commerce nacional em três anos, conforme estimativas da Folha de S.Paulo citadas em relatórios setoriais.

Estudo do Influencer Marketing Hub indica que 81% das vendas no TikTok Shop vieram de compradores recorrentes, ou seja, a confiança construída pelo conteúdo se converte em fidelização concreta.

Para uma loja de cosméticos de Sumaré ou para um restaurante de Nova Odessa, o ciclo virtuoso é claro: conteúdo gera audiência, audiência gera confiança, confiança gera venda recorrente.

O comércio da RMC frente ao TikTok como vitrine

A questão para os comerciantes da região não é mais se o TikTok faz sentido para o negócio, mas como entrar de forma sustentável em um ambiente que ficou mais competitivo a cada trimestre.

As lojas que começaram a postar em 2023 e que conseguiram se manter relevantes hoje fazem três coisas em comum: produzem com regularidade, usam ferramentas que facilitam o trabalho diário e investem em sinais sociais para destravar o alcance dos primeiros vídeos publicados.

A consultora de marketing digital Rafaela Souza, que atende empresas de Americana e Santa Bárbara, resume o que observa nos clientes que pediram suporte nos últimos meses. “O comerciante chega achando que basta gravar e publicar.

Em pouco tempo percebe que o jogo virou. Hoje ele precisa pensar em estética, ritmo de publicação, prova social e integração com WhatsApp ou loja online. Quem trata o TikTok como rede de visibilidade e não como rede de venda direta fica para trás”, afirmou.

A RMC reúne pelo menos três fatores que favorecem essa virada: público consumidor relevante (Americana sozinha tem mais de 240 mil habitantes), comércio diversificado e uma malha industrial que produz desde têxteis até insumos.

O que falta, em geral, é o que o programa Vitrine Digital tenta cobrir: conhecimento prático para transformar o ponto físico em operação multicanal, com presença consistente nas redes em que o consumidor já está.

Para quem ainda encara a rede como brincadeira de adolescente, vale lembrar o que o estudo do Censo de Criadores de Conteúdo do Brasil, conduzido pela Wake Creators, vem mostrando há mais de dois anos: o TikTok deixou de ser plataforma de entretenimento puro e se firmou como espaço comercial e profissional. As 30 horas mensais que o brasileiro passa no aplicativo não vão diminuir.

O que vai mudar, e já está mudando, é quem ocupa essa atenção. Para o comércio da região metropolitana de Campinas, a janela está aberta, mas a vantagem fica com quem entender as novas regras antes do vizinho.

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