Você é dono da academia ou só paga para usar a marca dos outros?

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À frente da Seven7Play, academia em Curitiba/PR, Anderson Moraes acompanha de dentro uma mudança silenciosa no mercado fitness: nunca pareceu tão fácil abrir uma academia, mas talvez nunca tenha sido tão difícil sustentar uma operação saudável. Entre redes de baixo custo, novas franquias, mensalidades agressivas e empreendedores seduzidos por modelos prontos, o setor vive uma expansão que também cobra sua conta.

Preparador físico, empresário e CEO da Seven7Play, Anderson afirma que muitos investidores entram no mercado olhando para a força de uma marca conhecida, mas deixam em segundo plano perguntas essenciais: quanto custa operar o negócio mês após mês? Qual é a margem real depois de royalties, aluguel, equipe e manutenção? E, principalmente, o empreendedor está construindo patrimônio próprio ou apenas pagando para usar o nome de outra empresa?

“Na franquia, muitas vezes o empreendedor é dono da unidade, mas não é dono do negócio de verdade. Ele trabalha para fortalecer uma marca que pertence a outra pessoa. Quando cria a própria academia, o caminho pode ser mais difícil, mas ele constrói um patrimônio dele”, afirma.

Abrir uma academia virou o sonho de muitos empreendedores que enxergam no setor fitness uma combinação tentadora: demanda constante, mensalidade recorrente e um público cada vez mais preocupado com saúde, estética e qualidade de vida. No papel, parece uma conta simples. Na prática, nem sempre é.

Com a expansão das redes e o aumento das franquias no setor, cresce também uma pergunta incômoda para quem pensa em investir: ao abrir uma unidade franqueada, o empreendedor está construindo um negócio próprio ou apenas pagando para operar a marca de outra pessoa?

A crítica não é à franquia como modelo, mas à forma como parte dos novos empreendedores entra nesse mercado. Segundo Anderson, muita gente compra a ideia de negócio pronto sem calcular o peso real dos custos, da concorrência e da falta de autonomia.

“É parecido com comprar um carro parcelado. A pessoa olha o valor da prestação, não o custo final. No setor fitness, isso acontece quando o empreendedor olha para a entrada facilitada e para a promessa de faturamento, mas não coloca na conta royalties, aluguel, equipe, manutenção, sazonalidade e guerra de preço”, diz.

A mensalidade baixa também cobra seu preço

O avanço das redes de baixo custo mudou a dinâmica das academias independentes. Para o consumidor, mensalidades menores ampliam o acesso. Para o empresário pequeno, porém, a disputa pode virar uma armadilha.

Anderson afirma que tentar competir apenas no preço costuma ser um erro.

“Se uma academia pequena entra na guerra do menor valor, ela sangra junto com quem tem escala. A rede grande consegue diluir custo, negociar volume e trabalhar com margens apertadas. A academia independente precisa competir em outro campo: atendimento, relacionamento, acompanhamento e comunidade”, explica.

Essa lógica muda o centro do negócio. A academia deixa de ser vista apenas como um espaço com aparelhos e passa a funcionar como uma empresa de recorrência. O desafio não é só vender matrícula. É fazer o aluno voltar.

“Academia não vive de matrícula. Vive de permanência. O aluno não abandona de uma vez. Primeiro ele falta, depois perde o vínculo e só então cancela. Se o dono não acompanha isso, ele só percebe quando o dinheiro já saiu do caixa”, afirma.

Marca pronta ou patrimônio próprio?

Um dos pontos mais sensíveis, segundo Anderson, é a construção de valor no longo prazo. Em uma franquia, o franqueado pode operar a unidade, contratar equipe e atender clientes, mas a marca principal não pertence a ele. Isso pode pesar na hora de vender o negócio, reposicionar a operação ou criar uma identidade própria no bairro.

“Marca é patrimônio. Quando você passa anos levantando o nome de outra empresa, precisa entender que aquele ativo não é seu. Já numa academia independente, cada aluno fidelizado, cada processo ajustado e cada relação construída fortalece algo que pertence ao empreendedor”, diz.

Para ele, a autonomia é uma vantagem competitiva das pequenas academias, desde que seja bem usada. O empresário independente pode adaptar horários, criar planos específicos, testar formatos, mudar comunicação, conversar diretamente com alunos e ajustar o atendimento com mais velocidade.

“O problema é que muita academia pequena tenta parecer rede grande. Ela copia o preço, copia a comunicação e perde justamente aquilo que poderia ser seu diferencial: proximidade”, afirma.

O verdadeiro concorrente é a evasão

Embora redes e franquias pressionem o mercado, Anderson acredita que o maior adversário de uma academia não está necessariamente do outro lado da rua. Está dentro da própria operação.

“Antes de culpar a concorrência, o dono precisa olhar para a evasão. Quantos alunos entram e somem em 30 dias? Quantos faltam por duas semanas e ninguém chama? Quantos não renovam porque nunca criaram vínculo com professor, recepção ou ambiente?”, questiona.

Para ele, os próximos anos devem separar academias que vivem de promoção daquelas que sabem operar relacionamento.

Entre os pontos que o empresário considera essenciais estão acompanhamento dos alunos novos, controle de frequência, contato ativo com quem começa a faltar, ambiente acolhedor para iniciantes, equipe bem treinada e clareza na proposta de valor.

“Tem academia que acha que precisa comprar mais equipamento, quando o problema está no básico: atendimento, limpeza, organização, professor presente e aluno se sentindo visto. Aparelho atrai. Relação segura”, afirma.

Franquia pode ser caminho, mas não pode ser anestesia

Anderson evita tratar a franquia como vilã. Para ele, o modelo pode funcionar para determinados perfis, especialmente quando há suporte real, marca forte e operação bem estruturada. O risco está em vender a franquia como se ela eliminasse as dificuldades do negócio.

“Franquia não apaga o risco. A pessoa continua precisando vender, atender, gerir equipe, controlar custo e reter aluno. Se ela entra achando que a marca vai fazer tudo sozinha, a conta chega”, diz.

A recomendação para quem deseja entrar no setor é começar pela pergunta mais simples — e talvez a mais ignorada: que tipo de negócio o empreendedor quer construir?

Se a resposta for apenas “abrir uma unidade”, a franquia pode parecer o caminho mais curto. Mas se a intenção for construir uma marca, criar valor local e desenvolver um ativo próprio, Anderson defende que o modelo independente deve ser considerado com mais seriedade.

“Ser dono de verdade dá mais trabalho. Mas também dá mais liberdade. E, no fim, liberdade é uma parte importante do patrimônio”, afirma.

 

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