A Era do Peso Perdido: por que emagrecer deixou de ser sinônimo de saúde

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Durante décadas, o sucesso de um tratamento para emagrecimento coube em uma pergunta simples: quantos quilos você perdeu?

A resposta aparecia na balança, nas roupas mais largas e nas fotografias de antes e depois. Quanto maior a diferença, mais bem-sucedido parecia o processo.

Mas a medicina da obesidade entrou em uma nova era. Medicamentos mais eficazes, avanços no conhecimento metabólico e tratamentos cada vez mais individualizados tornaram possível alcançar reduções de peso que, até pouco tempo atrás, eram vistas principalmente após cirurgias bariátricas. Em grandes ensaios clínicos, terapias como semaglutida e tirzepatida produziram perdas médias expressivas em pessoas com sobrepeso ou obesidade.

O avanço é real e representa uma transformação importante no cuidado de uma doença crônica que, por muito tempo, foi tratada como simples falta de força de vontade.

Agora, porém, surge uma pergunta mais desconfortável: Estamos formando uma geração de pessoas mais magras ou verdadeiramente mais saudáveis?

A balança informa quanto o corpo pesa. Ela não revela quanto desse peso é gordura visceral, músculo, água ou massa óssea. Também não mostra se o paciente recuperou energia, melhorou o sono, ganhou força, reduziu a resistência à insulina ou passou a se alimentar melhor. É possível perder muitos quilos e continuar metabolicamente vulnerável.

O número diminuiu. Mas o organismo melhorou?

A mudança na forma de enxergar o emagrecimento já aparece nas próprias discussões científicas sobre obesidade.

Uma comissão internacional publicada no periódico The Lancet Diabetes & Endocrinology propôs que a obesidade deixasse de ser avaliada apenas pelo índice de massa corporal, o IMC. Os especialistas defenderam que o diagnóstico também considere a quantidade e a distribuição da gordura, a função dos órgãos, as limitações físicas e os impactos reais sobre a saúde.

A lógica é importante: duas pessoas com o mesmo peso ou o mesmo IMC podem ter condições metabólicas completamente diferentes.

Uma pode apresentar maior quantidade de massa muscular, boa capacidade física, exames adequados e pouca gordura visceral. Outra pode ter baixa massa muscular, gordura acumulada ao redor dos órgãos, fígado gorduroso, glicemia alterada e pouca resistência física.

Da mesma forma, duas pessoas que perderam dez quilos podem ter chegado a resultados radicalmente distintos.

“Emagrecer bem não significa simplesmente ocupar menos espaço. Significa construir um organismo que funcione melhor depois da perda de peso”, explica o médico Dr. Gustavo de Oliveira Lima, especialista em emagrecimento.

Isso significa observar o que mudou além da aparência, pressão arterial, glicemia, perfil lipídico, circunferência abdominal, saúde hepática, qualidade do sono, mobilidade, força muscular, disposição e relação com a comida.

A Era do Peso Perdido: por que emagrecer deixou de ser sinônimo de saúde

A balança não informa o que foi perdido

Toda perda de peso costuma envolver alguma redução de massa magra. Isso não acontece exclusivamente com medicamentos e pode ocorrer em dietas muito restritivas, jejuns prolongados, períodos de doença e emagrecimentos sem estímulo muscular adequado.

O problema começa quando o paciente perde peso rapidamente sem consumir proteínas suficientes, sem realizar treinamento de força e sem acompanhar a composição corporal.

Em uma análise do estudo SURMOUNT-1, com tirzepatida, aproximadamente 74% da redução de peso correspondeu à gordura e 26% à massa magra. Os pesquisadores ressaltaram que a proporção foi semelhante à observada em outros processos de emagrecimento, mas o dado reforça a necessidade de avaliar não apenas quantos quilos desapareceram, e sim qual tecido foi preservado.

É importante fazer uma distinção, “massa magra” não é exatamente sinônimo de músculo. As medições incluem água, órgãos e outros tecidos livres de gordura. Ainda assim, especialistas vêm defendendo que estudos e tratamentos acompanhem não apenas a massa muscular, mas também força, mobilidade e desempenho físico.

O músculo não serve apenas para produzir uma aparência atlética. Ele participa do controle da glicose, protege articulações, sustenta a autonomia ao longo do envelhecimento e permite realizar tarefas básicas, como subir escadas, carregar compras e levantar-se do chão.

Uma pessoa pode, portanto, ficar mais leve e simultaneamente mais fraca.

“O emagrecimento de qualidade preserva a estrutura que mantém o paciente funcional. Quando a pessoa perde gordura, mas também perde força, disposição e capacidade física, o tratamento precisa ser reavaliado”, afirma Dr. Gustavo de Oliveira Lima.

O risco tende a ser mais relevante em idosos, pessoas sedentárias, pacientes que já iniciam o tratamento com pouca massa muscular e indivíduos submetidos a restrições calóricas severas.

As canetas não são o problema, a superficialidade do tratamento é

Transformar os novos medicamentos em vilões seria tão equivocado quanto tratá-los como soluções mágicas.

Essas terapias podem proporcionar benefícios que ultrapassam a estética. No estudo SELECT, com mais de 17 mil participantes com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes, a semaglutida reduziu em 20% o risco combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal.

O dado mostra que tratar a obesidade pode mudar desfechos relevantes de saúde e não apenas o manequim. O problema aparece quando uma ferramenta médica potente é inserida em um tratamento pobre: sem diagnóstico adequado, sem avaliação de composição corporal, sem acompanhamento nutricional, sem exercício e sem planejamento de manutenção.

A pessoa recebe a medicação, perde o apetite, come cada vez menos, vê o peso cair e acredita que o processo está concluído.

Mas a obesidade é uma doença crônica, complexa e com tendência à recorrência. Em muitos pacientes, interromper o tratamento sem uma estratégia adequada pode ser seguido pela recuperação de parte do peso.

Isso não significa que toda pessoa deverá usar a mesma medicação para sempre. Significa que a suspensão, a manutenção ou a troca do tratamento não deveriam ser decisões improvisadas.

Recuperar peso após interromper uma terapia não é necessariamente uma falha moral do paciente. Pode refletir a própria biologia de uma doença que interfere na fome, na saciedade, no gasto energético e nos mecanismos de defesa do peso corporal.

Para Dr. Gustavo de Oliveira Lima, o tratamento deve ser planejado desde o início para proteger o paciente durante a perda de peso. Isso inclui avaliação clínica, investigação de alterações metabólicas, consumo adequado de proteínas e micronutrientes, treinamento de força, atividade física compatível com a condição individual, sono e acompanhamento da evolução corporal.

 

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