A balança não informa o que foi perdido
Toda perda de peso costuma envolver alguma redução de massa magra. Isso não acontece exclusivamente com medicamentos e pode ocorrer em dietas muito restritivas, jejuns prolongados, períodos de doença e emagrecimentos sem estímulo muscular adequado.
O problema começa quando o paciente perde peso rapidamente sem consumir proteínas suficientes, sem realizar treinamento de força e sem acompanhar a composição corporal.
Em uma análise do estudo SURMOUNT-1, com tirzepatida, aproximadamente 74% da redução de peso correspondeu à gordura e 26% à massa magra. Os pesquisadores ressaltaram que a proporção foi semelhante à observada em outros processos de emagrecimento, mas o dado reforça a necessidade de avaliar não apenas quantos quilos desapareceram, e sim qual tecido foi preservado.
É importante fazer uma distinção, “massa magra” não é exatamente sinônimo de músculo. As medições incluem água, órgãos e outros tecidos livres de gordura. Ainda assim, especialistas vêm defendendo que estudos e tratamentos acompanhem não apenas a massa muscular, mas também força, mobilidade e desempenho físico.
O músculo não serve apenas para produzir uma aparência atlética. Ele participa do controle da glicose, protege articulações, sustenta a autonomia ao longo do envelhecimento e permite realizar tarefas básicas, como subir escadas, carregar compras e levantar-se do chão.
Uma pessoa pode, portanto, ficar mais leve e simultaneamente mais fraca.
“O emagrecimento de qualidade preserva a estrutura que mantém o paciente funcional. Quando a pessoa perde gordura, mas também perde força, disposição e capacidade física, o tratamento precisa ser reavaliado”, afirma Dr. Gustavo de Oliveira Lima.
O risco tende a ser mais relevante em idosos, pessoas sedentárias, pacientes que já iniciam o tratamento com pouca massa muscular e indivíduos submetidos a restrições calóricas severas.
As canetas não são o problema, a superficialidade do tratamento é
Transformar os novos medicamentos em vilões seria tão equivocado quanto tratá-los como soluções mágicas.
Essas terapias podem proporcionar benefícios que ultrapassam a estética. No estudo SELECT, com mais de 17 mil participantes com sobrepeso ou obesidade, doença cardiovascular estabelecida e sem diabetes, a semaglutida reduziu em 20% o risco combinado de morte cardiovascular, infarto não fatal ou acidente vascular cerebral não fatal.
O dado mostra que tratar a obesidade pode mudar desfechos relevantes de saúde e não apenas o manequim. O problema aparece quando uma ferramenta médica potente é inserida em um tratamento pobre: sem diagnóstico adequado, sem avaliação de composição corporal, sem acompanhamento nutricional, sem exercício e sem planejamento de manutenção.
A pessoa recebe a medicação, perde o apetite, come cada vez menos, vê o peso cair e acredita que o processo está concluído.
Mas a obesidade é uma doença crônica, complexa e com tendência à recorrência. Em muitos pacientes, interromper o tratamento sem uma estratégia adequada pode ser seguido pela recuperação de parte do peso.
Isso não significa que toda pessoa deverá usar a mesma medicação para sempre. Significa que a suspensão, a manutenção ou a troca do tratamento não deveriam ser decisões improvisadas.
Recuperar peso após interromper uma terapia não é necessariamente uma falha moral do paciente. Pode refletir a própria biologia de uma doença que interfere na fome, na saciedade, no gasto energético e nos mecanismos de defesa do peso corporal.
Para Dr. Gustavo de Oliveira Lima, o tratamento deve ser planejado desde o início para proteger o paciente durante a perda de peso. Isso inclui avaliação clínica, investigação de alterações metabólicas, consumo adequado de proteínas e micronutrientes, treinamento de força, atividade física compatível com a condição individual, sono e acompanhamento da evolução corporal.