Para Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos:
A sexta-feira amanhece com uma rara combinação de cautela, petróleo caro, juros longos elevados e política ocupando espaço demais no preço dos ativos. Na Ásia, o Nikkei avançou 0,38%, enquanto o Kospi caiu 1,79% e Xangai recuou 0,11%, retrato de um mercado que não está pessimista o suficiente para fugir, nem confiante o bastante para comprar. O dinheiro odeia dúvida, mas aprendeu a cobrar aluguel por ela. Quando ninguém sabe para onde correr, o prêmio fica com quem sabe onde não pisar.
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Nos Estados Unidos, todas as atenções estão concentradas no discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole, enquanto os Treasuries continuam dizendo o que as bolsas preferem fingir que não escutam. O título de 10 anos trabalha perto de 4,67% e o de 30 anos ronda 5,20%, níveis que mantêm elevado o custo de capital de empresas, famílias e do próprio governo americano. Juros longos não fazem barulho como uma crise, mas cobram como uma. Wall Street pode discutir narrativa; o Tesouro americano trabalha com boleto.

A revisão de referência do payroll será outro ponto decisivo do dia porque pode alterar retrospectivamente a leitura sobre a força do mercado de trabalho americano e, consequentemente, o espaço para cortes de juros. A expectativa de inflação da Universidade de Michigan completa o diagnóstico justamente quando Nasdaq futuro cai 0,32% e o S&P 500 opera praticamente estável. O Fed não precisa derrubar a economia para controlar a inflação, basta convencer o mercado de que poderia. O problema começa quando a credibilidade custa mais caro que o próprio juro.
O petróleo adiciona uma camada geopolítica que o mercado gostaria de tratar como provisória, embora a guerra entre Estados Unidos e Irã já tenha completado seis meses. Brent perto de US$ 88 e WTI acima de US$ 83 continuam incorporando prêmio de risco pela indefinição sobre o Estreito de Ormuz, enquanto qualquer bloqueio relevante nessa rota volta a ameaçar inflação, fretes e cadeias globais. Petróleo é a inflação que viaja de navio. E geopolítica só parece distante até aparecer na bomba de combustível.

Na Europa, o sentimento econômico da zona do euro melhorou para 98,4 pontos em agosto, acima dos 97,6 esperados, mas a França lembrou que confiança e crescimento nem sempre dividem o mesmo endereço: o PIB francês ficou estagnado no segundo trimestre, frustrando a previsão de alta de 0,2%. A Europa está aprendendo que melhorar de humor não significa necessariamente ganhar dinheiro. Economias também sorriem para foto antes de olhar o extrato.
No Brasil, o IGP-M caiu 0,22% em agosto, melhor que julho, quando havia despencado 1,16%, mas menos do que a deflação de 0,30% esperada pelo mercado. Dentro do índice, o IPA-M recuou 0,34% e o IPC-M caiu 0,41%, números que ajudam a aliviar parte da pressão inflacionária enquanto o país aguarda o Caged e novos sinais sobre atividade. Inflação menor ajuda o Copom, mas não absolve Brasília. O juro pode cair alguns degraus; o fiscal continua morando no elevador.
A discussão fiscal ganhou ontem uma contribuição peculiar depois de Lula afirmar que uma dívida pública próxima de 80% do PIB não seria elevada em comparação a economias como Estados Unidos, Japão e Itália. A comparação é matematicamente possível e economicamente incompleta, porque países não pagam o mesmo prêmio de risco, não possuem a mesma moeda, não financiam suas dívidas sob as mesmas condições e tampouco desfrutam da mesma profundidade de mercado. Comparar dívida brasileira com dívida americana usando apenas porcentagem é comparar pressão arterial ignorando a idade do paciente. A dívida não assusta pelo tamanho isolado; assusta pelo preço que o país precisa pagar para carregá-la.

Politicamente, a sabatina de Lula na TV Globo deixou pontos sensíveis expostos justamente quando começa o horário eleitoral e a Quaest prepara uma nova rodada com 2.004 entrevistas. Na pesquisa anterior, Lula aparecia com 38% contra 31% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 43% a 40% no segundo, uma distância que já vinha diminuindo. Eleição não entra no valuation porque o mercado gosta de política; entra porque política altera impostos, gastos, juros e confiança. A urna não negocia na B3, mas muda o preço de quase tudo que negocia.
No micro, minério de ferro em Cingapura sobe cerca de 0,70%, para US$ 98,45, beneficiando o complexo de commodities, embora a Vale enfrente nova percepção de risco após o STF formar maioria pela tributação de lucros de controladas no exterior.
Petróleo caro e Petrobras
Petrobras convive com Brent elevado e com a prorrogação por 60 dias do imposto de 12% sobre exportações de petróleo, enquanto Banco do Brasil enfrenta provisões maiores no agro e o GPA tenta avançar numa recuperação extrajudicial contestada pelo Ministério Público. Na Magno, é justamente por isso que patrimônio não pode ser construído olhando apenas o rendimento da próxima tela: cenário, risco fiscal, crédito, inflação e liquidez precisam conversar entre si. Produto entrega taxa; estrutura entrega sobrevivência. E em mercados difíceis, sobreviver bem costuma ser a forma mais sofisticada de ganhar dinheiro.
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