Elogio do mico, por André Luís Oliveira
Há uma cena que se repete, hoje, nos arraiais de junho: o menino de quatro anos, mão suada na mão do pai, os olhos fixos no chão, recusando-se a dançar a quadrilha. Não é cansaço. É vergonha. E o curioso, o curioso que me persegue como pedagogo, como diretor, como avô improvável de quatrocentas crianças que não são minhas, é que essa vergonha chegou cedo demais. Antigamente o mico só doía depois dos oito, dos nove anos, quando a criança já tinha aprendido, com a vida, que existia plateia. Hoje, com quatro anos, a criança já desconfia que todo erro pode ter plateia. Já existe a possibilidade do erro público. Já existe, portanto, o medo.
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Isso me intriga porque a infância, se é alguma coisa, é a dimensão poética da existência: o lugar onde ainda se pode errar o passo, trocar a letra da música, cair de bunda no meio do salão, rir disso e seguir. A espontaneidade é o nome bonito que damos à falta de vergonha de existir. E se a infância está, cada vez mais cedo, sequestrada por esse medo adulto da exposição, então talvez estejamos roubando das crianças justamente o tempo em que era permitido, e até esperado, dar mico.


Não estou falando do palco de madeira, com cortina, música e famílias emocionadas. Esse palco pode ser uma festa. Há crianças que, quando acompanhadas com cuidado, descobrem diante dele a própria voz, aprendem a falar, a representar, a recitar e a sustentar uma ideia diante dos outros. Vejo isso há muitos anos. Vejo crianças de três e quatro anos dizendo poemas num sarau e meninos de seis explicando a Amazônia numa feira de ciências com uma desenvoltura que a minha geração demorou muito mais para alcançar.
O palco de que falo é outro. É aquele que se instala sem cortina e sem convite, quando a criança começa a sentir que cada tropeço pode se transformar em julgamento. Uma coisa é o palco da expressão. Outra é o tribunal da exposição. Talvez o problema não esteja em aparecer. Esteja em sentir que é preciso aparecer sem falhar.
Porque eu sou, confesso, um especialista em dar mico. Não por vocação, mas por ofício: ninguém dirige uma escola por trinta anos sem colecionar uma galeria de vexames domésticos, pequenos e gloriosos.
Conto um. Festa junina se aproximando, eu correndo atrás de patrocínios e prêmios de bingo, entre eles, um jantar generosíssimo doado por um casal cearense, donos de um restaurante muito querido aqui na cidade. Naquele dia eu tinha chegado à escola sem o tempo sagrado que reservo para passar de sala em sala, dar boa tarde, olhar no olho de cada criança, brincar um pouco, porque diretor de gabinete eu nunca quis ser. E, no meio da correria, lembrei: preciso ligar para a mãe do Pedro, confirmar a doação. Disquei. E, como todo diretor que liga em horário de aula sabe, comecei pelo ritual de tranquilizar: “Fulana, tudo bem? Olha, antes de mais nada, está
tudo bem com o Pedro, viu, fica tranquila…” E a mãe, do outro lado, com o barulho do mar de Fortaleza ao fundo, me interrompeu, rindo: “André, está tudo bem com o Pedro, ele está aqui do meu lado.”
Eu não sabia onde enfiar a cara. Fiquei procurando, em vão, algum buraco pedagógico disponível ali perto. Ela riu. Eu ri de mim mesmo. E aquele mico, paradoxalmente, fez mais pela nossa confiança mútua do que qualquer discurso de autoridade teria feito. Porque rir de si mesmo, na hora exata da falha, é talvez a única forma elegante de continuar sendo levado a sério.
Tem mais. Uma vez, numa saída de aula, chamei uma menina de Maitê Proença. Ela se chamava só Maitê, mas eu, com a musa na cabeça naquele dia, completei o sobrenome errado. O pai, gentilíssimo, devolveu: “Pode chamar de Bruna Lombardi também, não temos preconceito.” Outra vez, havia dois gêmeos lindos, Bento e Benjamin, e, na hora de entregar as crianças, eu gritei, com toda a convicção do mundo: “Bento e Benedini!”, nome de uma escola concorrente aqui da cidade. Não bastou errar o nome do menino. Ainda fiz propaganda gratuita para a escola rival, no portão da minha própria escola.
E guardo, como relíquia, um mico antigo, de quando ainda nem sonhava em escrever livros sobre isso. Numa atividade de velocidade com os pequenos, uma criança correu muito bem, e eu, empolgado, soltei: “Nossa, você é um Emerson Fittipaldi!” A criança, sete anos, em 2016 ou 2017, me olhou com aquela cara de quem encontrou um fóssil falante. Não fazia ideia de quem eu estava falando. Eu também não fazia ideia de que precisava, urgentemente, de uma atualização de referências. Nem o Ayrton Senna salvaria aquele momento.
Conto essas coisas, e conto também, em Descobrindo o Storytelling, o episódio do mico do diretor, não por exibicionismo da falha, mas porque acredito, cada vez mais, que autoridade que não erra em público é autoridade que nunca foi, de fato, humana diante de quem a observa. A criança que vê o adulto tropeçar e rir de si mesmo aprende uma lição que nenhuma cartilha ensina: o erro não é o fim da história. É apenas um parágrafo cômico dela.
Isso não significa lançar a criança ao constrangimento para que ela “aprenda”. Significa construir lugares suficientemente generosos para que ela possa falar, cantar, representar, esquecer uma palavra, trocar um passo e ainda assim continuar inteira. O palco verdadeiro pode ser um desses lugares. A sala de aula também. O pátio também. O que não pode é a plateia transformar cada falha em sentença.
Porque sobreviver ao mico é, no fundo, uma das primeiras formas de coragem que se aprende na vida. E talvez devêssemos, nós adultos, pais, professores, diretores de gabinete ou de chão de pátio, dar o exemplo: errar visivelmente, rir de nós mesmos e seguir dançando a quadrilha, ainda que fora do compasso, ainda que com o nome trocado, ainda que com o mar de Fortaleza ouvindo tudo.
Talvez a infância não precise de menos palcos. Precise de palcos mais generosos. Lugares em que a criança descubra a própria voz sem imaginar que precisa ser perfeita para continuar pertencendo. Porque o contrário do mico não é a perfeição. É a confiança de saber que, mesmo depois do tropeço, ninguém será expulso da brincadeira.
E você? Qual foi o mico que, olhando agora, ensinou mais do que qualquer acerto? Conte aqui nos comentários. Prometo não trocar seu nome com o de ninguém.
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Até a próxima página,
André Luís Oliveira
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