Por Pastor Aílton e Esther Moraes

ENTRE O SILÊNCIO E A FÉ: AS MULHERES QUE DENUNCIARAM VIOLÊNCIA NA BÍBLIA

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Quase metade das mulheres vítimas de violência grave no Brasil não reage. Exatos 47,4% afirmam não ter feito nada diante da agressão sofrida. Ainda assim, 6% buscaram ajuda na igreja. Não é opinião, é dado. O relatório “Visível e invisível: a vitimização de mulheres no Brasil”, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) em parceria com o Instituto Datafolha, revela também que 42,7% das mulheres evangélicas já sofreram violência ao longo da vida, contra 35% das católicas.

Outro dado acende um alerta ainda mais profundo: segundo o Instituto DataSenado (2025), 53% das mulheres em situação de violência procuram primeiro a igreja — antes da própria família ou dos serviços públicos.

Pastor Aílton

Isso diz muito. Diz sobre confiança. Diz sobre fé. Mas também diz sobre responsabilidade.

Porque parte dessas mulheres, ao buscarem acolhimento, encontram culpa.

Uma reportagem da UOL traz relatos que doem: “Quando contei ao pastor que meu marido me agredia, ele disse: ‘irmã, você está orando pouco’”. Outra mulher conta: “Eu só orava, jejuava e fazia propósito para Deus restaurar meu casamento. Aprendi que a mulher deve ser submissa e lutar até o fim. Qualquer coisa diferente disso seria pecado”.

Essas falas não são apenas aconselhamentos equivocados, evidenciando a má formação de inúmeros pastores evangélicos no país, são mecanismos de manutenção da violência.

Quando a fé é usada para silenciar, ela deixa de ser refúgio e passa a ser prisão.

Os dados mostram que a igreja é, muitas vezes, o primeiro lugar onde a dor chega, mas nem sempre é o lugar onde a justiça começa. E isso não deveria ser assim. Igreja é lugar de acolhimento e de denúncia de todo tipo de injustiça. O apóstolo Paulo livrou uma jovem em Filipos, primeira cidade da Europa a conhecer o evangelho, da exploração por parte de seus senhores. Paulo foi para a prisão. Mas, sua atitude deveria ser imitada hoje pelas igrejas cristãs do país.

Porque, ao contrário do que muitas vezes se prega, a própria Bíblia não é um livro de silêncio feminino. É também um livro de denúncia, coragem e ruptura.

Tamar, no livro de 2 Samuel 13, após ser violentada por seu meio-irmão Amnom, não se escondeu. Rasgou suas vestes, símbolo público de dor e denúncia, e clamou em alta voz. Tamar não aceitou o silêncio, ela expôs a violência, mesmo em uma estrutura de poder que a ignorou.

Sifrá e Puá, as parteiras hebreias no Êxodo, desafiaram diretamente uma ordem de morte do Faraó. Elas não apenas desobedeceram, protegeram vidas e enfrentaram o poder com coragem, denunciando na prática uma política genocida.

Raabe, em Jericó, também rompeu com a lógica de seu próprio povo ao proteger os espiões hebreus. Sua escolha foi um ato político e moral contra um sistema violento.

Essas mulheres não foram submissas à injustiça. Foram protagonistas da resistência.

E isso precisa ser dito com todas as letras: nenhuma liderança religiosa tem o direito de usar a fé para proteger agressores ou constranger vítimas ao silêncio.

A fé que salva não é a que manda suportar a dor é a que rompe com ela.

Hoje, felizmente, já existem iniciativas dentro de igrejas que caminham na direção correta: centros de acolhimento, escuta qualificada e até assessoria jurídica. Há espaços que compreendem que cuidar da fé também é proteger a vida.

Mas ainda persiste uma interpretação perigosa: a de que o casamento deve ser mantido a qualquer custo e que o sofrimento feminino pode ser espiritualizado como prova ou missão. Não é.

Violência não é propósito. Dor não é projeto de Deus.

Se a igreja é o primeiro lugar onde muitas mulheres chegam, ela precisa ser também o primeiro passo para a saída da violência e não o motivo para permanecer nela.

É hora de escolher qual fé queremos praticar: a que silencia ou a que liberta.

Esther Moraes – Vereadora do PV em Santa Bárbara d’Oeste – SP

Rev. Ailton Gonçalves Dias Filho – Pastor e Professor universitário

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