Depois de conhecerem a dor do abandono, da negligência e da violência, alguns animais resgatados pela organização Natureza Conecta encontraram um novo sentido para suas próprias histórias. Hoje, além de viverem em segurança, eles atuam como co-terapeutas de mais de 660 jovens e crianças em vulnerabilidade social residentes nas casas de acolhimento e internos da Fundação Casa.

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Entre esses protagonistas está Sheik, cavalo puro-sangue inglês de nove anos, que viveu anos como atleta do turfe no Jockey Club de São Paulo. Desde os dois anos de idade, competia em corridas e acumulava vitórias. Há três anos, porém, sofreu um grave acidente durante uma prova. A recuperação exigia cirurgia e fisioterapia, mas o tutor se recusou a arcar com os custos e solicitou que o animal fosse eutanasiado.

Animais

Daniela Gurgel, Fundadora da ONG Natureza Conecta

“O veterinário responsável se recusou a interromper a vida de um cavalo que tinha plenas condições de se recuperar“, relembra Daniela Gurgel, fundadora da Natureza Conecta. Após o tratamento, Sheik ficou sem destino. Foi então que a organização foi acionada para acolhê-lo. “Ele tinha dado tantas alegrias e foi abandonado no momento mais difícil. Hoje, é um símbolo de resistência e confiança”, afirma.

Outra história marcante é a de George, um porco de quatro anos que foi resgatado ainda filhote, junto com a irmã, em uma cidade vizinha. Os dois haviam sido abandonados e estavam prestes a serem queimados vivos na rua. O resgate foi feito pela prefeitura, mas não havia estrutura para acolhê-los. A Natureza Conecta assumiu o cuidado dos animais, que hoje pesam cerca de 350 quilos. “George cresceu cercado de respeito. Ele ensina, sem palavras, o valor da vida“, destaca Daniela.

Já Zeus, boi da raça holandesa, chegou à fazenda com apenas sete dias de vida. Ele e o irmão estavam sendo vendidos por R$ 150, após serem descartados por uma fazenda de leite, prática comum quando os bezerros são machos. Abandonados à própria sorte, chegaram debilitados, muito abaixo do peso e com sérios problemas de saúde. “Eles estavam moribundos, com dificuldade para mamar e diarreia sanguinolenta. Não sabíamos se sobreviveriam”, recorda Daniela Gurgel.

Com acompanhamento veterinário, alimentação adequada e cuidado diário, Zeus se recuperou. Hoje, convive com crianças e adolescentes em atividades educativas e terapêuticas, assim como Sheik e George. “Esses animais carregam marcas do passado, assim como muitos jovens que nos procuram. A identificação é imediata”, explica Daniela.

Animais resgatados são co-terapeutas

O trabalho da Natureza Conecta integra proteção animal, educação ambiental e apoio emocional. Por meio do contato respeitoso com os animais, os participantes aprendem sobre responsabilidade, empatia e resiliência.

Eles percebem que é possível recomeçar, mesmo depois da dor. Os animais são nossos maiores professores. As histórias de Sheik, George e Zeus mostram que, quando há cuidado e compromisso, o ciclo da violência pode ser transformado em uma rede de afeto. E que, muitas vezes, aqueles que um dia precisaram ser salvos acabam se tornando agentes de cura para outros”, afirma.

Atualmente, a fazenda Natureza Conecta fica localizada em Itu, no estado de São Paulo, e abriga mais de 30 animais entre cães, cavalos, porcos, vacas, cabras e codornas, sendo que a maioria deles chegou à ONG por meio de resgate ou doação.

Os animais têm encontros semanais com as crianças e adolescentes atendidos pela Natureza Conecta na fazenda da organização, cada sessão tem duração média de 2 horas. A ONG também transporta alguns bichos para o complexo da Fundação Casa Sorocaba – que engloba cidades como Campinas, Jundiaí e Itu – onde internos fazem terapia assistida com os animais.

A interação dos animais co-terapeutas com os jovens em vulnerabilidade social, vem oferecendo melhores resultados se comparados com abordagens tradicionais e facilita a atuação de psicólogos e pedagogos em questões como traumas, violência, comportamento e desempenho escolar. “Fico muito feliz em poder proporcionar uma nova vida tanto para os animais que resgatamos como para a reabilitação dos meninos e meninas que atendemos”, avalia a fundadora da ONG.

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