Neoplasia cervical é termo genérico que descreve diferentes tumores e exige investigação detalhada

Diagnóstico anunciado por Luís Roberto, narrador da TV Globo, de 64 anos, traz atenção para expressão médica ampla que pode indicar desde alterações benignas até diferentes tipos de câncer. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), avaliação clínica, exames de imagem e biópsia são essenciais para definir origem, tipo de lesão e tratamento, especialmente diante do alto número de casos avançados no país

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Neoplasia cervical é termo genérico que descreve diferentes tumores e exige investigação detalhadaO diagnóstico de uma neoplasia na região cervical, divulgado pelo narrador Luís Roberto, de 64 anos, trouxe à tona um ponto central. Trata-se de um termo médico amplo que não define, por si só, o tipo de doença. O jornalista anunciou que ficará afastado das transmissões, incluindo a cobertura da Copa do Mundo, para se dedicar ao tratamento. Na prática, explica a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), a expressão descreve um crescimento anormal de células na região do pescoço e pode corresponder a diferentes condições, benignas ou malignas, com origens distintas e abordagens específicas.

Esse caráter genérico explica por que o diagnóstico inicial costuma ser apenas o primeiro passo de uma investigação mais detalhada. O termo não equivale automaticamente a câncer, embora essa possibilidade precise ser considerada. Ele pode abranger desde tumores benignos até lesões malignas, além de casos em que o tumor tem origem em outra parte do corpo e se manifesta no pescoço.

De acordo com o cirurgião Carlos Eduardo Santa Ritta, coordenador da Comissão de Cabeça e Pescoço da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), a região cervical reúne diferentes estruturas anatômicas, o que amplia o leque de diagnósticos possíveis. “Uma neoplasia na região do pescoço pode significar um tumor originado em qualquer um dos órgãos situados na região cervical (tireoide, glândulas salivares, esôfago, traqueia, laringe, faringe ou linfonodos) ou também pode ser devido a uma neoplasia originada em outras regiões do corpo, quando o tumor sofre um processo chamado metástase e se espalha para os gânglios linfáticos na área do pescoço (ocorrendo crescimento progressivo daquele gânglio linfático, mas com o tumor primário originado fora do pescoço)”.

A amplitude do termo também se reflete no diagnóstico diferencial. “Todos os nódulos ou tumores cervicais devem ser avaliados para proceder com a investigação correta e distingui-los entre tumores benignos ou malignos. Essas massas ou nódulos cervicais podem ter origem inflamatória (popularmente chamadas de ínguas) ou infecciosa (abscessos, furúnculos e até tuberculose cervical), assim como podem corresponder a tumores benignos congênitos (malformações presentes desde o nascimento, que se desenvolvem com o passar do tempo) ou a neoplasias benignas (lipomas ou cistos), e  podem também ser malignas. Como se pode notar, a origem ou o tipo de tumor pode ter um diagnóstico diferencial bastante amplo”, afirma Santa Ritta.

Sintomas variam conforme o local e o tipo de lesão

A diversidade de estruturas envolvidas na região cervical também explica a variação dos sintomas. Em muitos casos, o primeiro sinal é discreto e pode ser negligenciado. “Os sintomas irão depender de qual local específico do pescoço que a neoplasia se desenvolve, qual o tipo de órgão que elas se originam e em quais estruturas ela começa a pressionar durante o crescimento. Mas, em geral, um nódulo aumentado no pescoço pode ser o primeiro sinal. Rouquidão ou dificuldade para deglutição (engolir) também podem ser sinais precoces e devem ser investigados se persistirem por mais de duas ou três semanas”, explica Santa Ritta.

Além do aumento de volume no pescoço, outros sinais podem surgir conforme a progressão da doença, como dor, alterações na voz e dificuldade para respirar ou engolir. Ainda assim, a ausência de sintomas intensos nas fases iniciais contribui para o atraso na busca por avaliação médica.

Dados do Instituto Nacional do Câncer indicam que o Brasil registra mais de 40 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço por ano. Cerca de 80% são diagnosticados em estágios avançados, o que reduz as chances de tratamento curativo e aumenta o risco de sequelas funcionais.

Diagnóstico combina exame clínico, imagem e análise celular

A investigação de uma neoplasia cervical segue etapas que buscam identificar a origem e o tipo da lesão. “Primeiramente, a recomendação é de uma boa avaliação clínica inicial para se identificar a possível origem primária da lesão. Após esta avaliação, serão necessários exames de imagem para localização precisa (como ultrassonografia cervical, tomografia computadorizada ou ressonância magnética) e exames que avaliem o tipo de célula que o tumor se origina (biópsias por punção ou por cirurgia)”, detalha o cirurgião.

Esse processo permite diferenciar tumores benignos de malignos e orientar a definição do tratamento. Em alguns casos, a lesão identificada no pescoço não é primária, mas sim uma manifestação de câncer originado em outra região do corpo.

Tratamento depende do tipo de tumor e da extensão da doença

A definição do tratamento está diretamente ligada ao diagnóstico final. “O tratamento vai ser específico para cada tipo de lesão que é identificada, geralmente para os tumores benignos, apenas a cirurgia é resolutiva. E nos casos das neoplasias malignas o tratamento pode ser com terapias isoladas que podem englobar cirurgia, radioterapia ou quimioterapia. Ou necessitar tratamento combinado com duas ou mais das opções citadas”, afirma Santa Ritta. A escolha entre cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou combinação dessas abordagens depende da localização, da extensão e das características celulares do tumor.

Prognóstico está associado ao diagnóstico precoce

Embora o termo “neoplasia” possa gerar preocupação, o prognóstico varia conforme o tipo de tumor e o momento do diagnóstico. “A maior parte dos tumores e neoplasia do pescoço tem prognóstico bom se identificados e tratados precocemente. Claro que o prognóstico exato depende de cada tipo específico que originou a neoplasia. Geralmente os tumores de tireoide têm excelentes chances de cura, mesmo quando avançados, enquanto os tumores de boca e laringe podem ter uma chance de cura que dependem fortemente do estágio que a doença for identificada. Por isso, é extremamente importante que os pacientes tenham um diagnóstico inicial, onde as chances de cura se apresentam muito maiores”, ressalta.

Esse ponto também se reflete nos fatores de risco e na evolução clínica. “Podemos afirmar que apesar do local ou órgão específico que originou a neoplasia apresentar um fator importante no prognóstico e cura, quanto mais precoce a doença for identificada e quanto mais rapidamente o paciente iniciar o tratamento, melhor será a chance de cura. “Além disso, o diagnóstico precoce, associado a um melhor prognóstico, também reduz o risco de sequelas importantes ou definitivas. Entre os grupos mais predispostos estão pessoas com consumo de tabaco e álcool, além daquelas com maior risco de infecção pelo HPV. Nesse último caso, destaca-se a importância da vacinação como estratégia para o controle da doença e para a redução da progressão de tumores associados a essa infecção”, conclui Santa Ritta.

Sobre a SBCO – Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes (2025-2027).

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