A SaferNet Brasil protocolou ontem (13 de Agosto) na Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) representação elaborada a partir dos resultados de pesquisa inédita sobre 14.969 endereços únicos do Telegram denunciados ao Canal de Denúncias (www.denuncie.org.br) entre 2017 e 2026, trata-se da íntegra do acervo de denúncias contra a plataforma acumulado pela instituição em quase uma década.
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É o terceiro levantamento da série iniciada em outubro de 2024, quando a SaferNet revelou que mais de 1,25 milhão de usuários do Telegram estavam em grupos que vendiam imagens de abuso sexual infantil, e continuada em fevereiro de 2025, quando nova análise verificou o agravamento de todos os indicadores. Somados os dois semestres de 2024, foram detectados 2,65 milhões de usuários em grupos e canais com esse tipo de conteúdo.
Resultados principais
Os principais resultados, obtidos através de consultas à API do próprio Telegram:
- Dos 14.969 endereços únicos verificados, 8.160 (54,5%) já estavam inexistentes ou removidos e 4.851 (32,4%) eram convites revogados;
- 1.958 endereços (13,1%) permaneciam ativos e públicos nas datas da verificação, conduzidas neste mês – entre eles 435 convites para grupos privados ainda válidos;
- 1.093 endereços ativos apresentam indícios de material de violência sexual contra criança ou adolescente no título e/ou no texto da denúncia: 518 perfis de usuários e robôs, 256 convites ativos, 192 canais e 127 grupos;
- 22 links potencialmente associados a grupos e canais de automutilação e incitação ao suicídio;
- A análise dos links publicados pelos canais ativos revelou uma rede em expansão: 468 canais do Telegram até então desconhecidos da base de denúncias foram descobertos a partir dos que sobreviveram;
- A distribuição temporal mostra crescimento acentuado a partir de 2022 e pico histórico de denúncias em julho de 2026 – sinal de que o fenômeno documentado desde 2024 persiste e se agrava.

Fig 01 – Painel forense com as características das URLs denunciadas à SaferNet Brasil consultadas através da API pública do Telegram.
A relação completa dos endereços ativos foi entregue às autoridades para fins de investigação. A verificação empregou exclusivamente a camada pública de pré-visualização da plataforma (domínio t.me) com consultas determinísticas e autocontidas via API (saiba como funciona) sem autenticação, sem ingresso em grupos e sem acesso a mensagens, mídia ou dados de participantes. A metodologia completa está documentada em relatório técnico que acompanha a representação protocolada na ANPD.
Para Thiago Tavares, presidente da Safernet Brasil, o “Telegram não é apenas uma plataforma onde o abuso acontece, mas uma infraestrutura que, por sua arquitetura técnica, seu modelo de monetização e sua postura de moderação, estrutura e viabiliza a produção, a distribuição e a comercialização de material de violência sexual contra crianças e adolescentes em escala industrial”.

Fig. 02 — URLs do Telegram no período de janeiro de 2017 a agosto de 2026 (n = 14.966 registros datados) recebidas e processadas pela SaferNet Brasil, pela data da denúncia. Base consolidada: 14.066 URLs denunciadas + 900 endereços citados nos comentários das denúncias (estes com a data do comentário de origem). Gráfico (a): evolução mensal da série, com destaque para o maior valor da série (jul/2026), o segundo maior (mai/2023) e o pico de abril de 2020. Tabela (b): valores mensais por ano. * 2026 parcial (jan–ago; agosto até 09/08/2026).
Um novo cenário legal no Brasil
Desde o último levantamento, em fevereiro de 2025, o quadro jurídico brasileiro mudou profundamente. Entrou em vigor, em março de 2026, o ECA Digital (Lei nº 15.211/2025), que obriga as plataformas a prevenir riscos, remover e comunicar às autoridades os conteúdos de aparente exploração e abuso sexual, e atender a notificações extrajudiciais, sob pena de multa de até R$ 50 milhões por infração. A ANPD foi designada autoridade fiscalizadora, e os Decretos nº 12.975 e 12.976/2026 atualizaram a regulamentação do Marco Civil da Internet, positivando a responsabilização das plataformas por falha sistêmica na indisponibilização de conteúdos criminosos graves, na esteira da tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal nos Temas 987 e 533, transitada em julgado em junho de 2026.
Na esfera penal, a Lei nº 15.487, de 6 de agosto de 2026, elevou as penas dos crimes de violência sexual contra crianças e adolescentes no ambiente digital – alcançando expressamente material gerado por inteligência artificial – e criminalizou quem cria, administra, hospeda ou modera ambientes cibernéticos destinados a esse material, crimes agora classificados como hediondos.
Com base nesse novo arcabouço, a representação apresentada à ANPD pede a instauração de procedimento de fiscalização (ou a juntada ao procedimento já em curso na Agência), a apuração de falha sistêmica, e a verificação dos deveres de comunicação e transparência do Telegram, nos termos do ECA Digital e de seu regulamento.
“Em dois anos, publicamos dois relatórios, entregamos os dados às autoridades brasileiras e estrangeiras e vimos todos os indicadores piorarem. O que mudou agora é o quadro legal: com o ECA Digital, os novos decretos do Marco Civil e a decisão definitiva do Supremo, a omissão sistemática do Telegram passou a ter consequências jurídicas objetivas no Brasil”, afirma o presidente da SaferNet Brasil, Thiago Tavares.
O que o Telegram bane × o que reporta aos reguladores europeus
A representação é acompanhada de um painel público de dados construído sobre os registros oficiais da DSA Transparency Database, da Comissão Europeia, cruzados com os números que o próprio Telegram autodeclara. O contraste é eloquente: no período em que manteve reporte ativo à base europeia, a plataforma declarou 791.561 banimentos globais de comunidades por material de abuso sexual infantil, mas enviou apenas 5.699 decisões nessa categoria ao regulador Europeu – cerca de 139 banimentos para cada decisão reportada.
Houve ainda 322 dias iniciais e um apagão de 141 dias sem o envio de um único relatório, e, em toda a história da base, nenhuma notificação de entidade de proteção à infância aparece como origem de decisão da plataforma, embora o Telegram declare ter bloqueado 73.827 conteúdos a partir de denúncias de quatro organizações do setor.
O padrão não é um problema apenas brasileiro: o Telegram está sob investigação da Ofcom, no Reino Unido, por suspeita de descumprimento dos deveres de impedir o compartilhamento de material de abuso sexual infantil, e responde a ação de penalidade civil da eSafety Commissioner, na Austrália, por falhas sistêmicas na remoção de material ilícito.
Robôs de nudificação no Telegram: o estudo de caso do relatório “Rostos Fabricados, Danos Reais”
A diretora da SaferNet Brasil, Juliana Cunha, apresenta hoje, às 16h, no evento Trust is Earned da BBC Brasil e do BBC World Service, que acontece no auditório do Centro Brasileiro Britânico em São Paulo, um dos cinco estudos de caso do relatório de outra pesquisa inédita da SaferNet Brasil, “Rostos Fabricados, Danos Reais”, financiada pelo fundo Safe Online, que investiga o panorama dos deepfakes sexuais entre os jovens brasileiros e cuja íntegra será lançada no Brasil em breve. O capítulo desta pesquisa dedicado ao Telegram documenta por que a plataforma se tornou o ambiente preferencial dos robôs de nudificação – sistemas de IA que “removem” digitalmente as roupas de fotografias comuns ou trocam o rosto da vítima em cenas pornográficas, sem exigir qualquer conhecimento técnico do usuário.
Na amostra analisada, os robôs de nudificação no Telegram geram, mediante pagamento, deepfakes de crianças, adolescentes e adultos. O estudo disseca a engenharia financeira que sustenta esse mercado: os conteúdos e ferramentas são vendidos por assinaturas recorrentes de baixo valor (até R$ 50 mensais no Brasil), pagas em criptomoedas e Telegram Stars, a moeda digital interna do Telegram, conversível pela blockchain TON que opera na plataforma.
O Telegram retém comissão de 15% a 30% sobre cada saque de Stars, lucrando indiretamente com as transações desses operadores, e um mercado paralelo de sites de recarga permite abastecer contas apenas com o @username, sem verificação de identidade, ofuscando a origem do dinheiro e onerando as autoridades de investigação.
Para Juliana Cunha, diretora na SaferNet e coordenadora da pesquisa sobre deepfakes sexuais, as “mecânicas de gratuidade inicial, créditos por check-in diário e gamificação dos bots de nudificação do Telegram criam uma porta de entrada desenhada sob medida para o público jovem”.
As evidências brasileiras convergem com as internacionais
Relatório da organização europeia AI Forensics (abril de 2026) documentou ecossistema semelhante que alcançou cerca de 52 mil pessoas na Itália e na Espanha, com grupos removidos e recriados com o mesmo nome em questão de horas; e a Internet Watch Foundation (IWF) registrou aumento de 26.385% nos vídeos realistas de abuso sexual infantil gerados por IA entre 2024 e 2025.
No Dia da Internet Segura de 2026, a SaferNet Brasil e a rede INHOPE anunciaram a declaração global “Unifying Voices Worldwide: No to Nudify“, subscrita por 107 organizações de proteção à infância de todo o mundo, entre elas INTERPOL, NCMEC, ICMEC, INHOPE, Child Helpline Internacional, IWF, WeProtect, Thorn, ECPAT, Plan International e NSPCC. A declaração conclama os governos a responsabilizar civil e penalmente quem cria, distribui e lucra com a nudificação, e as empresas de tecnologia a “desmantelar a economia do abuso, remover as vias de monetização e banir apps e modelos desenvolvidos unicamente com o propósito de nudificar pessoas”, interrompendo o fluxo financeiro das redes criminosas que cometem crimes graves nos ambientes digitais.
A Lei nº 15.487/2026, sancionada na semana passada, passou a tipificar expressamente o material de violência sexual com crianças e adolescentes gerado por inteligência artificial e a criminalizar quem administra ou hospeda ambientes digitais destinados a essa finalidade.
Como denunciar
Quem encontrar conteúdo de abuso ou exploração sexual infantil na internet não deve acessar, salvar ou compartilhar o material: a orientação é denunciar imediatamente, de forma anônima, rápida e segura no formulário disponível em www.denuncie.org.br. As denúncias são analisadas diariamente por técnicos do MPF nos termos do acordo de cooperação assinado com a SaferNet Brasil e vigente desde 2017.
Sobre a SaferNet Brasil
A ONG SaferNet Brasil, fundada em 2005, tem 20 anos de atuação como referência na promoção e defesa dos Direitos Humanos na Internet. Com uma abordagem multissetorial, a organização colabora com governos, setor privado, academia e sociedade civil para construir uma internet mais segura e positiva. A instituição mantém Canal Anônimo de Denúncias de Crimes Cibernéticos (https://www.denuncie.org.br), em convênio com o Ministério Público Federal, Polícia Federal e Ministérios Públicos estaduais; o Canal Escola Segura (https://gov.br/escolasegura), em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública; e o Canal de Ajuda (https://www.canaldeajuda.org.br), para acolhimento de vítimas de violência online. Além disso, desenvolve projetos e campanhas de educação e conscientização para jovens, pais e responsáveis e educadores, a exemplo do Projeto da Disciplina de Cidadania Digital (https://cidadaniadigital.org.br), que apoia diretamente escolas da rede pública. A ONG também integra a rede internacional Insafe-Inhope, que reúne canais de denúncias e de ajuda contra a violência online em diferentes países.

