Motorista de aplicativo autista viraliza com lista de pedidos aos passageiros
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Uma placa presa ao banco traseiro de um carro de aplicativo transformou uma situação cotidiana em uma discussão sobre os limites da inclusão no trabalho. O motorista informa ser autista e pede aos passageiros que evitem conversar durante a viagem. Também solicita que não comam nem façam as unhas no veículo, tenham cuidado ao fechar as portas, evitem perfumes fortes e façam alterações de destino ou inclusão de paradas diretamente pelo aplicativo.
A reação nas redes sociais dividiu opiniões. Parte dos usuários enxergou no aviso uma forma legítima de estabelecer condições para tornar o trabalho mais confortável e previsível. Outros consideraram as solicitações excessivas para uma atividade baseada justamente na prestação de serviço e no contato com o público.
Por trás da polêmica, porém, há uma discussão mais ampla: como trabalhadores neurodivergentes podem comunicar suas necessidades em ocupações nas quais a relação com o cliente acontece a cada corrida?
A questão ganha outra dimensão quando se considera o próprio ambiente em que esses profissionais trabalham. Um levantamento do GigU em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação mostra que 59,1% dos motoristas já sofreram algum tipo de violência ou assédio durante a atividade. Além disso, 32,8% afirmam se sentir inseguros na maior parte do tempo, enquanto apenas 3,4% dizem estar “totalmente seguros”. Os números não tratam especificamente de motoristas neurodivergentes, mas ajudam a dimensionar o grau de imprevisibilidade e vulnerabilidade presente em uma atividade realizada dentro de um carro, com passageiros diferentes a cada viagem.
Nesse contexto, informar previamente que prefere não conversar ou evitar determinados estímulos pode ser, para um motorista autista, uma maneira de estabelecer limites e tornar a jornada mais previsível. Ao mesmo tempo, quando essas necessidades são comunicadas diretamente ao passageiro, podem ser percebidas como restrições adicionais a um serviço que pressupõe algum grau de flexibilidade.
O ponto central, portanto, não é determinar se o motorista está “certo” ou “errado”, mas discutir quem deve assumir o trabalho de acomodar essas diferenças. Quando a plataforma não oferece mecanismos para que o trabalhador sinalize suas necessidades ou para que o passageiro saiba como lidar com elas, a negociação acaba acontecendo dentro do próprio carro e depende da compreensão de duas pessoas que acabaram de se encontrar.
O tamanho potencial desse público também é pouco conhecido. O Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista no Brasil, o equivalente a 1,2% da população. Ainda não há, porém, um retrato oficial de quantas dessas pessoas estão no mercado de trabalho, em quais atividades estão concentradas ou quantas encontraram no transporte por aplicativo uma alternativa de inserção profissional.
A discussão sobre inclusão no trabalho costuma se concentrar em empresas com estruturas formais de contratação, políticas de diversidade e mecanismos de adaptação. O trabalho por aplicativo desafia esse modelo. O profissional tem autonomia sobre quando e quanto trabalhar, mas também opera em um ambiente em que a experiência é fortemente mediada pela plataforma e avaliada pelo usuário.
É justamente nessa tensão que o episódio ganha relevância. Inclusão não significa apenas permitir que pessoas neurodivergentes entrem em uma plataforma, mas criar condições para que elas consigam permanecer trabalhando, comunicar suas necessidades e exercer a atividade com segurança. Hoje, boa parte dessa adaptação parece acontecer informalmente, na relação entre motorista e passageiro, justamente onde as plataformas poderiam oferecer mais estrutura.
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