Sinais de alerta do câncer de pele: o que observar

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A radiação ultravioleta está diretamente relacionada a uma série de danos à saúde da pele, que vão desde o envelhecimento precoce até o desenvolvimento de diferentes tipos de câncer cutâneo. Mesmo sendo um tema amplamente discutido, a exposição solar ainda é subestimada por grande parte da população, especialmente no dia a dia, em deslocamentos urbanos, atividades ao ar livre ou até mesmo em dias nublados. Entender como esses danos ocorrem e quais fatores aumentam o risco é fundamental para a adoção de hábitos preventivos mais eficazes.

Nesta entrevista, o Dr. Rafael Schmerling, médico oncologista de pele do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas, explica de forma clara e acessível como a radiação UV atua nas células da pele, interferindo no DNA e favorecendo o surgimento de mutações que podem evoluir para o câncer. O especialista também detalha as diferenças entre a exposição solar contínua ao longo da vida e a exposição intensa em fases mais jovens, além de esclarecer por que determinados tipos de pele são mais vulneráveis aos efeitos nocivos do sol.

Ao longo da conversa, o Dr. Rafael aborda ainda os principais sinais de alerta que merecem atenção médica, a importância do uso diário do protetor solar, os cuidados que costumam ser negligenciados na rotina e o papel do acompanhamento dermatológico na prevenção e no diagnóstico precoce do câncer de pele. A entrevista reforça que informação, vigilância e proteção adequada são pilares essenciais para reduzir riscos e preservar a saúde da pele ao longo do tempo. Confira mais detalhes abaixo:

 

De que forma a radiação UV prejudica a saúde da pele?

A radiação ultravioleta danifica as células, interferindo no DNA presente na pele. O acúmulo de alterações nesse material genético pode levar a mutações nos genes, as quais representam o ponto de partida para o desenvolvimento do câncer de pele.

Quais são os principais danos causados pela exposição contínua aos raios UV?

A exposição à radiação ultravioleta (UV) pode provocar danos crônicos às células da pele, dependendo do tipo de mutação. As células das camadas basal e espinhosa são particularmente vulneráveis, podendo levar ao desenvolvimento de carcinomas de pele. A exposição intensa e aguda, especialmente na infância e adolescência, causa eritema (vermelhidão) cutânea. Essa queimadura solar induz alterações nos melanócitos, as células responsáveis pela pigmentação da pele, que podem resultar em melanoma na vida adulta. Portanto, a exposição contínua ao longo da vida está associada aos carcinomas, enquanto a exposição aguda na infância e adolescência é um fator de risco significativo para o melanoma.

Como a radiação solar aumenta a sensibilidade da pele e potencializa os efeitos nocivos dos raios UV?

A sensibilidade da pele não é causada pela radiação ultravioleta. Trata-se, portanto, de uma predisposição natural. Indivíduos com pele clara, que não bronzeia facilmente, tendem a apresentar maior sensibilidade. Nestes casos, a exposição à radiação ultravioleta aumenta o risco de dano às células da pele, através do mecanismo de alteração do DNA, conforme previamente mencionado.

Mesmo nos dias nublados, os índices de radiação UV permanecem altos. Recomenda-se usar também protetor solar nesses dias? Por que o protetor solar ainda é tão negligenciado nessas condições?

Recomenda-se o uso diário de protetor solar. A adesão ao uso do protetor solar, assim como a adoção de outros hábitos saudáveis como dieta equilibrada, prática regular de atividade física, interrupção do tabagismo e controle do consumo de álcool, frequentemente apresenta desafios. A formação de qualquer hábito saudável pode ser complexa.

Dentre os fatores que dificultam a utilização do protetor solar, destaca-se a dificuldade em encontrar um produto adequado ao tipo de pele. As peles oleosas, por exemplo, podem ter necessidades específicas, assim como as peles secas. A incompatibilidade do produto com a pele, seja por textura ou sensorial, pode diminuir a adesão ao uso.

Com o aprimoramento dos produtos disponíveis no mercado, as pessoas têm maior facilidade em encontrar protetores solares mais confortáveis, o que contribui significativamente para aumentar a adesão. Acredito que um dos principais fatores que influenciam a falta de adesão é a incompatibilidade do protetor solar em termos de conforto. Ressalto que essa incompatibilidade não se refere a aspectos médicos, mas sim a questões de preferência e sensorial.

Existe uma relação direta entre radiação UV e aumento dos casos de câncer de pele? O que as evidências mais recentes mostram?

A associação entre o câncer de pele e a radiação ultravioleta é amplamente reconhecida. As evidências clínicas e epidemiológicas demonstram que indivíduos com pele mais clara e sensível, e que são expostos de forma mais intensa ao sol, apresentam um risco aumentado de desenvolver a doença. A Austrália, por exemplo, registra a maior incidência mundial de câncer de pele, em parte devido à sua população de origem europeia, com pele clara, e à alta exposição solar. Observa-se, na prática clínica, que pacientes de pele clara que vivem em regiões com alta exposição solar também apresentam maior risco e incidência de câncer de pele.

O clima mais seco pode contribuir para agravar os danos cutâneos causados pela radiação UV?

A influência da umidade na questão climática é secundária. O fator crucial a ser considerado é a intensidade da radiação ultravioleta. Independentemente da localização geográfica – seja em áreas litorâneas com alta umidade, como nas regiões Norte e Nordeste, ou em regiões desérticas -, o risco associado à exposição à radiação ultravioleta se mantém.

 

Como a rotina de deslocamento — especialmente a pé, de moto ou em áreas de alto tráfego — influencia o risco de danos cutâneos?

A exposição solar acarreta riscos proporcionais à intensidade e duração. Portanto, indivíduos com maior exposição diária ao sol devem adotar medidas de proteção mais rigorosas. Um motociclista, por exemplo, que utiliza vestuário protetor, como jaquetas, demonstra precaução. Aqueles que negligenciam essa proteção estão mais vulneráveis a queimaduras solares, aumentando a longo prazo o risco de desenvolver câncer de pele.

A relevância da exposição solar é tamanha que, mesmo durante o uso de capacete em motocicletas, a luz solar pode atingir a pele através da viseira. Adicionalmente, a exposição solar ocupacional também é um fator importante. Profissionais como agentes de trânsito, que trabalham ao ar livre, necessitam utilizar protetor solar regularmente. Embora esses profissionais, em geral, tenham acesso a esse recurso, a proteção solar é igualmente crucial para quem se desloca a pé ou de bicicleta a trabalho.

Quais sinais de alerta na pele devem motivar uma consulta imediata ao dermatologista ou oncologista?

O diagnóstico de câncer de pele varia conforme o tipo. No caso dos carcinomas, o surgimento de nódulos em crescimento, que formam lesões proeminentes, pode indicar um carcinoma basocelular. Os carcinomas espinocelulares podem se manifestar como feridas persistentes, pequenas úlceras ou também nódulos. Portanto, para os carcinomas, nódulos cutâneos em expansão, especialmente em áreas expostas ao sol, e feridas que não cicatrizam, principalmente em áreas de exposição solar, são sinais de alerta.

Em relação ao melanoma, geralmente se apresenta como uma pinta atípica. Para identificar o melanoma, utiliza-se a regra do ABCDE: A de assimetria, com pintas assimétricas; B de bordas, com bordas irregulares; C de cor, com pintas que apresentam múltiplas tonalidades, como preto, marrom ou, às vezes, azulado; D de diâmetro, com lesões maiores que meio centímetro; e E, que é o critério mais importante, de evolução, com pintas que exibem mudanças, como o surgimento de novas pintas, alterações de forma, elevação ou sangramento. Essas lesões requerem atenção e avaliação diagnóstica por um dermatologista. O oncologista geralmente é consultado após a confirmação do diagnóstico, para discutir opções de tratamento.

Que cuidados diários são realmente eficazes para reduzir o impacto da radiação UV na pele? Há alguma recomendação que as pessoas costumam ignorar?

Quais são as medidas eficazes para controlar a exposição à radiação ultravioleta? A principal estratégia é a proteção. Como alcançar essa proteção? Através do uso de protetor solar, roupas adequadas (preferencialmente de manga comprida), chapéus, óculos escuros e, sempre que possível, buscando a sombra. Essas medidas devem ser adaptadas à rotina diária.

É fundamental evitar a exposição solar entre 9h e 16h, período de maior intensidade da radiação ultravioleta. Caso atividades ao ar livre sejam inevitáveis nesse horário, o uso de roupas com proteção UV é altamente recomendável.

Em resumo, as medidas preventivas incluem: roupas com proteção UV, mangas compridas, calças, chapéus, óculos escuros, protetor solar, evitar a exposição solar entre 9h e 16h e a busca por sombra.

Como o acompanhamento anual pode contribuir para a prevenção e diagnóstico precoce do câncer de pele na população?

A avaliação dermatológica periódica, embora não possua a mesma padronização de exames como o Papanicolau para rastreamento de câncer de colo de útero ou a mamografia para câncer de mama, é recomendada. A frequência ideal para essa avaliação ainda não está estabelecida, mas o exame regular é particularmente relevante para indivíduos de pele clara, devido à maior suscetibilidade a danos solares.

O exame dermatológico é simples e não invasivo, tornando-o uma recomendação de baixo risco e alto benefício. Além da consulta médica, o autoexame das pintas é crucial, incentivando a observação regular de pintas próprias e de familiares, especialmente nas costas.

Embora não exista uma diretriz formal de rastreamento para avaliação dermatológica, ela é fortemente recomendada. Para pacientes com múltiplos sinais pigmentares ou histórico familiar de melanoma, exames mais detalhados, como o mapeamento fotográfico digital ou dermatoscopia digital, podem ser indicados. Estes exames envolvem o registro fotográfico de todo o corpo, com análise individualizada de cada pinta e comparação ao longo do tempo.

A dermatoscopia digital não é indicada para todos, mas é um recurso valioso para pacientes com histórico pessoal ou familiar de melanoma ou com predisposição genética.

 

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