Teatro das Tesouras, por Gilson Alberto Novaes
Recentemente o Presidente Lula disse algo que não pode passar desapercebido.
Suas palavras textuais: “A política tá (sic) muito enraivecida. A política não é mais a mesma. Feliz era quando eu tinha o PSDB como oposição, porque o PT e o PSDB parecia todo mundo amigo. A gente tava (sic) em partido diferente, mas era todo mundo mais ou menos amigo”.
+ NOTÍCIAS NO GRUPO NM DO WHATSAPP
Após longos anos vivendo isso, hoje percebo que essa lógica tem nome:
Teatro das Tesouras!
Trata-se de uma estratégia política! Uma aparente oposição entre partidos que, na verdade servem a um mesmo projeto de poder. Simulam publicamente o conflito, mas preservam os mesmos fundamentos, acordos e interesses. São como as duas lâminas de uma tesoura: trabalham parecendo adversárias, mas atingem o mesmo objetivo!
Buscam controlar o debate e manter o controle do poder. Vimos isso na história da União Soviética, com Lênin, e também aqui no Brasil, com a alternância de poder entre PSDB/PT. Mudavam os discursos, os slogans e os estilos, mas o sistema, permanecia o mesmo!
Aqui no Brasil, essa prática – teatro das tesouras, se consolidou após a redemocratização, a partir de 1985.

A transição do regime militar não foi uma ruptura, mas sim, um acordo de cavalheiros. As elites políticas permaneceram, os mecanismos de poder foram mantidos e muitos daqueles que, depois se apresentavam como oposição à ditadura, participaram do regime ou mesmo da sua estratégia de saída.
A partir de então, surgiu-se uma falsa polarização: de um lado o PSDB com sua social-democracia e de outro, a esquerda sindical e partidária do PT. Nos palanques, discursos diferentes, mas na prática, o mesmo “presidencialismo de coalizão”.

O “presidencialismo de coalizão” é um termo cunhado pelo sociólogo Sergio Abranches em 1988, onde descreveu o sistema político brasileiro, em que o presidente precisa formar amplas alianças com diversos partidos no Congresso, para governar, distribuindo cargos e recursos em troca de apoio, em razão do alto número de partidos (hoje temos 30 no Brasil) e à necessidade de se obter maiorias significativas.
Assim, assistimos o mesmo fisiologismo, o mesmo loteamento do Estado e os mesmos acordos com as elites políticas e econômicas! Digladiavam-se nos palanques e se reencontravam nos bastidores. Por isso, a alternância de poder ocorreu sem muitas mudanças: FHC, Lula, Dilma, Lula de novo… O eleitor escolhe o gestor. O sistema já estava escolhido.
Nesse período tivemos Collor, Itamar e Temer, que não chegaram a desmontar o arranjo, mantendo vivo o teatro!
Apenas em 2018 algo diferente aconteceu! A eleição inesperada de Bolsonaro representou uma ruptura com o Teatro das Tesouras, pois ele não fazia parte desse pacto.
Imediatamente, adversários antigos se uniram! Por isso é que vimos algumas figuras se unindo àqueles que até então combatiam ferozmente.
O Presidente, ao admitir com naturalidade, que seus supostos adversários sempre foram seus amigos, apenas confirma: o Teatro das Tesouras sempre existiu na redemocratização do país.
Nunca tivemos esquerda contra direita!
Vamos aguardar as eleições deste ano!
* * * * * *
GILSON ALBERTO NOVAES é Professor Universitário
Advogado, Mestre em Comunicação Social e Doutor em Educação Arte e História da Cultura. Foi Vereador e Presidente da Câmara Municipal de Santa Bárbara d’Oeste.
Leia + sobre política regional