O STJ manteve a condenação do ex BBB Felipe Prior. Ele foi condenado a 8 anos de prisão por estupro.

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Não cabe mais recurso, ele vai ter mesmo que ir pra a cadeia. Observadores dizem que ele chegou a atacar Ana Paula Renault e defender Pedro, que saiu do #BBB26 após tentar beijar outra participante sem autorização 

Felipe Prior e a política

Da turma do conservadorismo, Prior recebeu apoio público do Eduardo Bolsonaro quando participou do BBB.

 

BBB expõe o silêncio coletivo quando alguém precisa de ajuda

Casos recentes no reality ajudam a explicar por que grupos inteiros travam diante do sofrimento e como a sociedade aprende a assistir em vez de agir

Cenas exibidas no BBB nesta edição provocam mais do que comoção momentânea. Elas acionam uma memória coletiva incômoda. Em uma prova, uma participante num quarto branco passa mal depois dias desafiadores em um ambiente restrito e desmaia. Em outra, Henri Castelli sofre uma convulsão durante a disputa pela liderança. Em ambos os episódios, o grupo de pessoas ao redor permanece em suas posições, chama a produção e espera. Ninguém abandona a prova. Ninguém se move de forma efetiva. A regra do jogo fala mais alto do que o impulso de ajudar.

O impacto dessas imagens não vem da surpresa. Vem do reconhecimento. A maioria das pessoas já viveu algo parecido fora da televisão. Alguém passa mal no transporte público, no trabalho, em um evento. O entorno observa, comenta, grava, chama alguém de fora. Poucos agem. Às vezes ninguém age.

Felipe Prior

A psicologia social estuda esse fenômeno há décadas. O chamado efeito espectador descreve a tendência de indivíduos não intervirem quando outras pessoas também presenciam uma emergência. Quanto maior o grupo, menor a chance de ação individual. A responsabilidade se dilui. Cada um espera que outro faça algo. Em ambientes com regras claras e punições explícitas, como uma prova de reality show, essa paralisia se intensifica.

No BBB, o dilema é objetivo. Sair do posto significa perder a prova. Ajudar tem custo. O corpo percebe o risco do outro, enquanto o cérebro calcula a perda pessoal. A decisão acontece em segundos e raramente favorece a ação. O coletivo entra em suspensão.

Esse mecanismo não se restringe a jogos. Ele aparece em empresas, escolas, ruas e hospitais. Ambientes competitivos, hierárquicos ou altamente observados aumentam o congelamento. A mente busca autorização externa para agir. Sem um comando claro, a resposta é esperar.

Além da lógica social, existe um fator emocional decisivo. Situações de sofrimento intenso ativam ansiedade, medo e sensação de impotência em quem observa. A reação automática pode ser o congelamento. Ignorar, filmar ou chamar alguém de fora reduz o desconforto interno de quem presencia a cena, mesmo que amplifique o abandono de quem sofre.

Na leitura clínica da Terapia Comportamental Dialética, esse processo está ligado à dificuldade de lidar com emoções intensas, próprias e alheias. Quando a ativação emocional sobe rápido, o cérebro perde flexibilidade. As pessoas se agarram a regras, papéis e protocolos para se sentirem seguras.

Segundo Vinícius Guimarães Dornelles, o comportamento coletivo nesses momentos não é sinal de frieza, mas de desorganização emocional. “O grupo entra em estado de alerta. O corpo quer agir, mas a mente trava buscando a forma correta de fazer isso. Em ambientes punitivos ou competitivos, a tendência é não sair do lugar”, explica.

Para Êdela Aparecida Nicoletti, a cena também revela um padrão social de invalidação. “Quando ninguém se move, a mensagem implícita é de que a dor pode esperar. Isso é especialmente grave em situações de saúde mental, exaustão extrema ou crises neurológicas, que nem sempre têm sinais óbvios”, afirma.

A cultura do celular adiciona outra camada. Pesquisas recentes em comportamento digital mostram que filmar situações de emergência funciona como uma forma de distanciamento emocional. A câmera cria uma barreira entre quem observa e quem sofre. Registrar substitui agir. Compartilhar vira resposta. A ajuda concreta fica em segundo plano.

Para quem já esteve do outro lado, a experiência costuma ser marcante. Pessoas que passaram mal em público relatam sensação de invisibilidade, vergonha e abandono. O sofrimento físico ou emocional se mistura à percepção de que ninguém se responsabilizou.

Romper esse ciclo exige mais do que boa intenção. Exige treino emocional e social. A DBT aponta que ações simples fazem diferença. Aproximar-se, perguntar se a pessoa responde, interromper uma atividade, insistir por ajuda de forma ativa e permanecer presente já reduzem riscos. Em grupos, basta uma pessoa agir para que outras sigam.

O BBB não cria esse comportamento. Ele o expõe. Ao colocar regras, pressão e câmeras sobre situações de limite, o programa mostra como a sociedade reage quando ajudar custa algo. O desconforto do público não é moral. É reflexivo.

As cenas acabam, a prova termina e o jogo segue. Fora da casa, situações semelhantes continuam acontecendo todos os dias. A pergunta que permanece não é sobre o reality, mas sobre nós. Diante do sofrimento alheio, o que nos paralisa e o que nos autoriza a agir.

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