A imagem de mais de 50 morcegos encontrados dentro de um aparelho de ar-condicionado durante uma manutenção no Rio Grande do Sul chamou atenção nas redes sociais nesta semana, mas o episódio serve como alerta para um problema menos visível e mais recorrente: a negligência com sistemas de climatização que, quando mal conservados, podem comprometer a saúde, a segurança e a qualidade do ar em ambientes fechados.

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No Brasil, a preocupação não é apenas técnica. A Lei 13.589/2018 determina que edifícios de uso público e coletivo com ambientes climatizados mantenham um Plano de Manutenção, Operação e Controle (PMOC), justamente para reduzir riscos à saúde dos ocupantes.

Ministério trata casos como o do morcego

O Ministério da Saúde também trata a qualidade do ar como questão de saúde ambiental, especialmente diante da exposição a poluentes em ambientes internos.

Patrick Galletti, engenheiro mecatrônico, especialista em climatização e CEO do Grupo RETEC, empresa com mais de 44 anos de referência em fornecimento de soluções integradas de climatização, refrigeração e ventilação, relata que o caso evidencia uma falha comum, o tratar o ar-condicionado apenas como equipamento de conforto, e não como infraestrutura sanitária.

“Quando um sistema passa longos períodos sem inspeção, limpeza ou vedação adequada, ele deixa de apenas perder eficiência e pode se transformar em ambiente propício para acúmulo de sujeira, umidade, microrganismos e até invasão de animais. O que viralizou é extremo, mas a negligência cotidiana é muito mais comum do que se imagina”, afirma.

Quando o equipamento vira abrigo

A presença de morcegos dentro de um equipamento pode parecer incomum, mas, tecnicamente, não é impossível. Falhas estruturais, dutos mal vedados, aberturas externas sem proteção e equipamentos instalados em áreas expostas podem facilitar a entrada de pequenos animais.

Segundo Galletti, morcegos, insetos, lagartixas e até roedores podem acessar estruturas de climatização dependendo do tipo de instalação. “Sistemas com falhas de vedação ou abandono prolongado podem se tornar pontos de abrigo. O problema não é apenas a presença do animal, mas os resíduos biológicos, fezes, odores e agentes contaminantes que podem permanecer no sistema e circular pelo ambiente.”

No caso dos morcegos, a preocupação sanitária se amplia porque esses animais podem carregar agentes infecciosos, exigindo manejo especializado e descontaminação adequada do sistema.

O perigo que não aparece nas imagens

morcego

Os riscos mais frequentes, porém, são menos visíveis. Poeira acumulada, bandejas de condensado com água parada, filtros saturados e serpentinas contaminadas favorecem a proliferação de fungos, bactérias e biofilmes.

“Nem todo problema gera uma cena impressionante. Muitas vezes, o alerta vem em forma de cheiro de mofo, aumento de crises alérgicas, dor de cabeça recorrente, irritação ocular ou sensação constante de abafamento”, explica Galletti.

A própria regulamentação sanitária brasileira reconhece a relação entre climatização inadequada e agravos à saúde. Normas técnicas e sanitárias sobre qualidade do ar interior surgiram justamente para reduzir riscos associados a manutenção precária, ventilação deficiente e contaminação em ambientes fechados.

Escritórios, casas e clínicas compartilham o mesmo risco

A discussão ganhou novo peso após a pandemia, quando a qualidade do ar interno passou a receber mais atenção em empresas, escolas, clínicas e residências. Isso porque as pessoas passam grande parte do tempo em ambientes fechados. Quando a ventilação é inadequada e o sistema de climatização opera sem manutenção, contaminantes permanecem circulando no mesmo espaço.

“Existe uma falsa sensação de segurança porque o ambiente está refrigerado. Temperatura agradável não significa ar saudável. Um sistema pode resfriar bem e, ao mesmo tempo, distribuir partículas nocivas”, diz Galletti.

Em ambientes corporativos, isso ainda afeta produtividade, absenteísmo e bem-estar ocupacional. Em clínicas e locais com circulação intensa, a preocupação é ainda maior.

Os sinais de que algo está errado

O especialista Patrick Galletti aponta sinais clássicos de alerta:

  1. Odor de mofo ou cheiro forte ao ligar o equipamento;
  2. Aumento de espirros, tosse, irritação nos olhos ou crises alérgicas;
  3. Gotejamento frequente ou excesso de umidade;
  4. Perda de eficiência na refrigeração;
  5. Ruídos incomuns;
  6. Acúmulo visível de sujeira nos filtros ou saídas de ar;
  7. Aumento injustificado no consumo de energia.

“Se o equipamento começa a apresentar qualquer um desses sinais, provavelmente o problema já deixou de ser apenas operacional”, afirma Galletti.

Erros que continuam comuns

Entre os erros mais recorrentes, o especialista cita:

  1. Limpar apenas a parte visível do aparelho;
  2. Ignorar manutenção profissional periódica;
  3. Operar com filtros saturados;
  4. Improvisar instalações sem vedação adequada;
  5. Negligenciar drenagem e acúmulo de umidade;
  6. Manter sistemas centrais sem plano estruturado de manutenção.

“Manutenção não é apertar botão ou lavar filtro superficialmente. Dependendo do sistema, há componentes internos que exigem inspeção técnica completa.”

Climatização entrou definitivamente na pauta da saúde

Para Galletti, episódios como o registrado no Sul ajudam a ampliar um debate necessário.

“Climatização precisa deixar de ser percebida como luxo ou conveniência. Hoje ela está diretamente ligada à saúde ambiental, segurança ocupacional, eficiência operacional e qualidade de vida. O custo de ignorar isso pode ser muito maior do que a manutenção preventiva.”

Num país que convive com extremos climáticos, aumento da permanência em ambientes fechados e maior atenção à qualidade do ar, o alerta deixado pelo caso vai além do impacto visual, é o que circula silenciosamente dentro de um sistema sem manutenção pode representar um risco muito mais frequente do que parece.

 

Sobre Patrick Galletti

Patrick Galletti é Engenheiro Mecatrônico, pós-graduando em Engenharia de Climatização, pós-graduando em Qualidade do Ar e especialista no “Impacto das mudanças climáticas na saúde das pessoas”, pela Universidade de Harvard.

Possui experiência em engenharia de orçamento, gerenciamento de riscos de construções, obras e operações offshore em uma das maiores empresas do Brasil, além de onze anos de atuação no mercado de climatização. Atualmente, é CEO do Grupo RETEC, uma empresa pioneira e referência com mais de 44 anos de atuação no mercado de AVAC-R (aquecimento, ventilação, ar-condicionado e refrigeração).

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