Quando Michelle Bolsonaro tentou se afirmar como voz política, ouviu de dentro da própria família que “não entende de política”. A dor dela é a mesma que vi no rosto de uma candidata ao conselho tutelar, desautorizada pelo pastor diante da congregação que disse que se ela quisesse votos ia ter que procurar em outro lugar. Iriam apoiar um outro pastor de outra congregação.

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É a mesma dor que senti quando parentes evangélicos me disseram que não poderiam votar em mim, mesmo sabendo que eu era mais qualificada. A mesma dor que senti quando dentro da minha própria comunidade fui preterida pelo mesmo pastor.

Naquele ano uma candidata se elegeu pois foi apadrinhada por um voz masculina de poder. Sem ele ela não teria chance. Eu estava no caixa do supermercado e um homem conhecido meu de anos me disse que tinha votado em mim por que um outro homem tinha pedido por mim.

Michelle Bolsonaro

Ele achou que estava me fazendo um favor ? Ele sabia da minha qualificação, mas precisava que outro homem o autorizasse a votar em mim ?

Até mesmo quem disse que ia me apoiar e que tinha certa visibilidade se garantiu de fazer escondido. Mostrando somente a quem eles tinham interesse. E ainda desconsiderando o meu trabalho e meu pedido de que eu não precisava de outro apoio que não a indicação e seu voto.

Essas histórias se cruzam como milhares de outras porque revelam uma verdade dura: dentro das estruturas patriarcais das igrejas e da política conservadora, a mulher pode ser símbolo, mas nunca protagonista.

Michele acreditou que, ao defender uma bandeira anti-feminista, teria espaço. Mas descobriu que o patriarcado não abre exceções.

Eu falo como feminista: não para ridicularizar sua dor, mas para mostrar que ela é consequência de um sistema que precisa ser desconstruído.

Enquanto as igrejas e os espaços políticos conservadores mantiverem a lógica de que liderança é privilégio masculino, mulheres continuarão sendo usadas como vitrine e descartadas como líderes.

Michelle Bolsonaro e o feminismo

É por isso que o feminismo é urgente. Ele não é inimigo da fé, nem da família. É inimigo da exclusão e de todo forma de exclusão.

E só ele pode abrir caminhos para que mulheres sejam reconhecidas como protagonistas dentro e fora das igrejas.

Infelizmente Michele ainda não entendeu que ela, mesmo dentro de uma estrutura de poder, “precisa da autorização dos seus homens para ser levada a sério pois ela não entende de política.”

Ela é um bom cabo eleitoral.( Ou era …afinal seu posicionamento expõe a ingratidão masculina )

Me solidarizo em sua dor e me identifiquei, mas Michele nunca vai me representar porque definitivamente não dá para servir a dois senhores só porque é conviniente.

Michelle ainda se ilude com o seu lugar dentro dessa estrutura. Ainda que ela tenha ajudado a eleger muitas mulheres, essas mulheres ainda só servem aos interesses dos homens e não passam de fantoches … infelizmente

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Cleide Carvalho é educadora em Americana

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