O fogo queimou 12,7 milhões de hectares no Brasil em 2025, uma redução de 58% em relação a 2024, ano marcado pelos efeitos do El Niño e por secas severas na Amazônia.
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O resultado também ficou 31% abaixo da média histórica anual de área queimada no país, de 18,4 milhões de hectares, e representa o menor registro desde 2018, segundo estudo coordenado por pesquisadores do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) para a 5ª Coleção do MapBiomas Fogo.
Com os dados de 2025, a área queimada acumulada nos últimos 41 anos ultrapassa 208 milhões de hectares, uma extensão maior que a área do México, o 13º maior país do mundo. Nesse período, 24% do território brasileiro queimou pelo menos uma vez. Além disso, 86% de toda a área atingida pelo fogo nas últimas quatro décadas concentra-se no Cerrado e na Amazônia, somando 179 milhões de hectares queimados nos dois biomas.
Desde 1985, a média de hectares queimados anualmente foi de 18 milhões de hectares, com destaque para os anos de 2007 e 2024, marcados pelos efeitos do El Niño, que registraram as maiores áreas queimadas no período, com 31 milhões e 30 milhões de hectares queimados, respectivamente.
“Após a seca extrema causada pelo El Niño em 2023 e 2024, a área queimada diminuiu em 2025 devido ao retorno das chuvas regulares, que aumentaram a umidade da vegetação. No entanto, essa trégua climática também pode ter estimulado o crescimento da vegetação com acúmulo de biomassa. Esse cenário serve de alerta para 2026, pois caso ocorram novos períodos de estiagem combinados com o uso indiscriminado do fogo, essa vegetação acumulada poderá funcionar como combustível altamente inflamável, elevando o risco de grandes incêndios”, alerta Vera Arruda, pesquisadora do IPAM.
O Fogo no Cerrado
Embora ocupe cerca de 25% do território nacional, o Cerrado concentra a maior parte da área queimada no Brasil, especialmente em sua porção norte. Em 2025, o bioma foi novamente o mais afetado pelo fogo, com 8,7 milhões de hectares queimados, uma redução de aproximadamente 20% em relação a 2024, quando o fogo atingiu 10,8 milhões de hectares. Do total queimado no Cerrado, 87% correspondeu a áreas de vegetação nativa, com destaque para as formações savânicas, que responderam por 58% de toda a área queimada no bioma.
Na Amazônia, o fogo atingiu 3,1 milhões de hectares em 2025, a menor área queimada registrada na série histórica de 41 anos. O resultado representa uma queda de 80% em relação a 2024, mas ainda mantém o bioma como o segundo mais afetado pelo fogo no país. Diferentemente do observado no Cerrado, 52% da área queimada na Amazônia correspondeu a áreas de uso antrópico, como pastagens e áreas de cultivo agrícolas. As pastagens, isoladamente, representaram 35% de tudo o que queimou no bioma.
“Não existe uma única solução para o fogo no Brasil porque o que funciona no Cerrado não necessariamente funciona na Amazônia. A série histórica do MapBiomas Fogo permite entender como o regime de fogo está mudando em cada bioma e identificar onde a prevenção deve ser priorizada e quais técnicas devem ser utilizadas. Esse conhecimento é essencial para controlar o uso do fogo na paisagem, reduzir o risco de grandes incêndios e implementar a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo com base em evidências”, detalha Ane Alencar, diretora da Ciência do IPAM.
Nos demais biomas, a Mata Atlântica registrou 216 mil hectares queimados em 2025, 77% a menos do que no ano anterior, enquanto o Pampa teve 10 mil hectares afetados, um aumento de 115%, mas ainda abaixo da média de 16 mil hectares anuais. A Caatinga, por outro lado, foi o único bioma brasileiro que registrou uma área queimada acima da média, com 504 mil hectares afetados, superando em 5% a tendência histórica da região.
O Pantanal por sua vez, um dos mais afetados pelos incêndios de 2024, quando cerca de 2 milhões de hectares foram queimados, registrou em 2025 a menor área queimada na série histórica: 121 mil hectares.
Quatro décadas de fogo
No geral, 72% da ocorrência de fogo no período se concentrou entre agosto e outubro, conhecidos como temporada do fogo, sendo setembro o mês com a maior média de área queimada: 6 milhões de hectares queimados por ano.
Além do recorte temporal, o novo levantamento conclui que 64% da área afetada pelo fogo queimou mais de uma vez. Ainda, áreas com recorrência de fogo tendem a ser atingidas pelo fogo novamente cerca de quatro anos depois, com destaque para a Amazônia, que no período teve 31% da área queimada afetada novamente dois anos depois dos primeiros registros de fogo, indicando uma alta reincidência nas áreas queimadas.
“Para uma floresta cujo intervalo natural entre eventos de fogo é de séculos, incêndios recorrentes desencadeiam um processo cumulativo de degradação. A mortalidade das árvores e a abertura do dossel ressecam o sub-bosque, tornando a floresta ainda mais inflamável. Sem tempo suficiente para se recuperar, a vegetação acumula mortalidade, perde grandes árvores e diversidade e passa a ser dominada por espécies pioneiras e gramíneas inflamáveis, que reduzem ainda mais o intervalo entre os incêndios. Esse ciclo transforma áreas anteriormente densas em vegetação aberta e degradada, além de converter um sumidouro de carbono em fonte de emissões”, explica Felipe Martenexen, analista de pesquisa do IPAM.
No Cerrado, 45% do território do bioma queimou pelo menos uma vez entre 1985 e 2025, com maior concentração do fogo na porção norte do bioma. O Pantanal, por sua vez, foi o que proporcionalmente mais queimou, somando 61% de toda sua extensão queimada pelo menos uma vez nos últimos 41 anos.
Vegetação nativa ameaçada pela queima
Entre 1985 e 2025, 71% de tudo que queimou foi vegetação nativa, cerca de 539 milhões de hectares, enquanto 28.5%, ou 215 milhões de hectares, foram em áreas de uso antrópico. Dentre as áreas naturais, as formações savânicas, a mais comum do Cerrado, foram as que mais queimaram, totalizando 34% de tudo que queimou no país nos últimos 41 anos. Entre as áreas de uso antrópico, as pastagens dominaram a maior extensão afetada, totalizando 23% de tudo que queimou no país.
“É um equívoco achar que o fogo que acontece em biomas não-florestais é menos sério. Cerrado, Caatinga e Pampa estão adaptados a um regime específico de fogo, mas o que vem acontecendo atualmente é muito mais frequente e intenso e degrada áreas sensíveis desses biomas. Já na Amazônia e na Mata Atlântica a situação é ainda mais grave, pois o fogo não integra a dinâmica natural dessas florestas. Nesses biomas, a vegetação atingida torna-se mais inflamável, alimentando um ciclo de perdas e ampliando o risco de danos cada vez mais difíceis de reverter” alerta Martenexen.
Dos seis biomas presentes do Brasil, quatro tiveram mais área natural queimada. Enquanto no Pantanal e no Pampa, 96% de tudo que queimou era vegetação nativa, Cerrado e Caatinga registraram 87% e 82% de fogo em áreas naturais, respectivamente. Na Amazônia e na Mata Atlântica, por outro lado, áreas antrópicas representaram 52% e 54% de tudo que queimou, com destaque para áreas de pasto e de lavouras.
Sobre o MapBiomas Fogo
O MapBiomas Fogo realiza o mapeamento anual e mensal das áreas queimadas no Brasil por meio do processamento de imagens geradas pelos satélites Landsat de 1985 a 2025. Com algoritmos de deep learning, foi mapeada a área queimada em cada pixel de 30 m x 30 m dos mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados do território brasileiro ao longo do período.
Os dados resultantes da Coleção 5 estão disponíveis em mapas e estatísticas anuais, mensais e acumulados para qualquer período entre 1985 e 2025 na plataforma, aberta gratuitamente a todos. Esses dados foram consolidados e publicados na segunda edição do Relatório Anual do Fogo (RAF) no Brasil com um panorama abrangente da ocorrência das áreas queimadas no território brasileiro nos últimos 41 anos, além da dinâmica do fogo por biomas, estados, municípios, categorias fundiárias e tipos de cobertura e uso da terra no país.
A plataforma também inclui dados do ano da última detecção do fogo, tamanho de cicatrizes queimadas, severidade, intervalo de retorno do fogo e frequência de fogo, indicando as áreas mais afetadas nos últimos 41 anos e o tipo de cobertura e uso da terra queimado, permitindo recortes territoriais e fundiários por bioma, estado, município, bacia hidrográfica, unidade de conservação, terra indígena, reserva da biosfera, quilombos e assentamentos.