Visitar a China é fazer uma viagem ao futuro e retornar à realidade.
Não espere carros voadores ou drones sobrevoando a sua cabeça. Aliás, muito pelo contrário, já que os diferentes conflitos em andamento no globo, sem dúvida, reforçaram o desenvolvimento dessa tecnologia e, especialmente, a sua aceleração. Evidentemente, para uso militar.
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Drones hoje são vistos na China como armas de guerra e já sofrem proibições em locais públicos. Obviamente, guerras não trazem nada de bom. Nesse caso não é diferente, mas podemos contar com a utilização dessas tecnologias aceleradas e desenvolvida por conta delas, nas aplicações agrícolas e não mais do que isso.

Falando em carros, é admirável acompanhar a evolução da indústria automobilística chinesa, especialmente, em matéria de elétricos. É notária a importância do petróleo para o mundo e isso fica ainda mais evidente com o conflito com o Irã e a disputa pela passagem dos petroleiros por Ormuz.
Seja qual for o tamanho dessa dependência, podemos ter a certeza de que o mundo, ao menos no que toca à fabricação de automóveis, já não é dependente dos combustíveis fósseis. Novamente, é impossível, não pensar no alcance que essa revolução dos carros elétricos trará também para o agronegócio no Brasil e no mundo.
Basta olhar o álcool combustível ou mesmo no etanol americano de milho. É questão de tempo. Pode levar mais ou menos, mas o mundo terá uma frota 100% elétrica. Como o assunto aqui é China, já é notável o impacto positivo dos motores elétricos silenciosos no trânsito de grandes centros como Shangai e Beijing.
Falando em agronegócio, não podemos nos deixar iludir pelo incremento das importações da China, que preencheu parte importante das lacunas deixadas pelas idas e vindas do tarifaço de Trump, tornando-se um parceiro comercial ainda mais importante para o Brasil. No entanto, a política pública chinesa não esconde de ninguém a sua obsessão na busca da segurança em suas três mais importantes vertentes: alimentar, energética e tecnológica.

Quando o assunto é tecnologia, na era da inteligência artificial, é óbvio que ir à China tem um forte interesse no assunto. Aliás, não se fala de outra coisa por lá! Nem poderia ser diferente. Afinal, nesse exato momento, há uma corrida, talvez só comparável a que o mundo conheceu em matéria espacial. Só que dessa vez, a disputa não se estabeleceu entre Estados Unidos e Rússia. Isso porque, assistimos a substituição do protagonismo soviético em razão do que fez a China nos últimos 30 anos, em uma clara reconstrução do imperialismo chinês, reinaugurada pela revolução socialista de Mao Tsetung e, inegavelmente, acelerada pela abertura Deng Xiaoping. É o soft power chinês!
Voltando o foco para a IA, a China já é a maior detentora do registro de patentes de novas tecnologias no mundo, forma 3,6 milhões de novos engenheiros por ano (mesmo com o paradigma de ostentar uma taxa de desemprego de cerca de 18% entre os jovens) e vem transformando empresas e negócios, colocando a inteligência artificial como o coração de suas atividades, desafiando modelos e quebrando paradigmas, inclusive, com um olhar voltado para a área de saúde e que merece muita atenção pelas oportunidades que traz.
Isso fica ainda mais claro quando o assunto é varejo. O fato é que a China não está digitalizando lojas, mas sim, se tornando uma infraestrutura de dados orientada por IA. Já que esta não é uma ferramenta a ser aplicada ao negócio, seja ele qual for. Ela é o negócio! O comércio na China não é mais eletrônico. Ele é algorítmico! A IA é novo varejo chinês criador por Jack Ma e seu Ali Baba e materializado por tantas outras companhias disruptivas como a Huawei, que já produz de celulares a automóveis, mas também é fornecedora de infraestrtura, armazenamento, energia e tantos outros produtos e serviços.

Nessa perspectiva de construção de um varejo global, embora seja muito evidente a importância de se ter uma classe média de verdade, com poder de comprar e consumir capazes de alimentar qualquer mercado ou indústria com suas 400 milhões de pessoas, a China quis muito mais.
Enquanto eliminava a pobreza, inclusive nas zonas rurais, mantendo ali a sua população e optando por urbanizá-las (65% dos chineses já residem em áreas urbanas), em vez de trazer seus cidadãos para os grandes centros, muitos países do mundo, inclusive o nosso, parecem ainda não haver entendido os benefícios, não só sociais, embora estes sejam inegáveis, de poder contar com uma classe média de verdade, capaz de impulsionar o país e a economia doméstica com sua renda per capita de USD 15.000,00 e uma taxa de poupança de 40%.
Para a China isso não bastava! Qualquer que seja a motivação, inclusive a de retomar o protagonismo e eliminar a vergonha dos tempos das guerras do ópio travas com os ingleses, a China optou por ser muito mais do que uma economia doméstica (o que já seria um grande feito). Ela decidiu pela construção de negócios, indústrias e marcas chinesas globais, valendo-se da oferta abundante de crédito (que também gera grande capacidade ociosa nas empresas).
Não é por acaso que nos deparamos com a esportiva Anta, por exemplo, que foi capaz de barrar o avanço da Nike na China e vem mostrando apetite e velocidade de execução (esta outra característica marcante da China hoje) para ganhar o mundo. Inspirando outras varejistas chinesas como Bosideng e Urban Revivo a fazer o mesmo.
Todo esse avanço se materializa pelo que temos assistido com os super apps chineses. Marketplaces capazes de reunir alguns milhares de aplicações e controlando seus próprios meios de pagamento. Dando ao consumidor o conforto necessário para viver cada vez mais suas experiências de consumo, ao mesmo tempo em que desenvolve habilidades logísticas inacreditáveis, gera, extrai e armazena os dados, este sim, o ativo mais preciso a ser utilizado, das formas mais diferentes, para que possa continuar acelerando a IA e dominando o mundo.
Afinal, a prática tem mostrado que cada vez que se sente ameaçada – e é assim desde o início da construção da muralha da China, esta se fecha e, incentivando a meritocracia entre seus cidadãos, busca as suas próprias soluções, fazendo o que for preciso para ser autossuficiente, qualquer que seja o assunto.
Quando se pergunta o que mais esperar da China, o mundo pode se preparar, pois neste exato momento, o avanço da indústria robótica por lá é simplesmente estarrecedor. Os robôs chineses já são uma realidade passível de ser adquirida na prateleira de um shopping qualquer e a sua aplicação, inclusive, substituindo o ser humano no comércio, nas atividades domésticas, no setor de serviços, na indústria e até em incursões militares, são o prenúncio de uma invasão, acelerada pela IA, que acontecerá bem debaixo dos nossos narizes.
Resta definir, em ritmo chinês, como nos preparar – e aos nossos negócios – para participar de tudo isso!
*Fernando Tardioli Lúcio de Lima – Advogado especializado em Recuperação de Crédito e sócio-fundador do escritório Tardioli Lima Advogados
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