Estudo brasileiro mostra que Triagem Neonatal permite diagnosticar e tratar a Doença Rara Atrofia Muscular Espinhal (AME-5q) antes dos 30 dias de vida
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As natural as nature intended
Um estudo brasileiro que foi publicado no periódico científico International Journal of Neonatal Screening demonstra que é possível diagnosticar a Doença Rara Atrofia Muscular Espinhal (AME-5q) ainda nas primeiras semanas de vida e iniciar o tratamento dentro do primeiro mês, janela decisiva para preservar a função motora de bebês com a doença.
A pesquisa é assinada pela equipe do Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação (CEPI),do Instituto Jô Clemente (IJC), em parceria com a Faculdade de Medicina da USP, a Unicamp, a Unifesp, o Hospital de São José do Rio Preto, HC-FMRP, Santa Casa, UNESP-Botucatu,e as Secretarias Estadual e Municipal de Saúde de São Paulo, entre outras Instituições.
O trabalho analisa os resultados de um projeto-piloto estadual de Triagem Neonatal Biológica (o popular Teste do Pezinho), para AME-5q conduzido pelo IJC — Serviço de Referência em Triagem Neonatal responsável por cerca de 68% dos Testes do Pezinho no estado de São Paulo — em parceria com os também serviços de referência de Campinas (CIPOI-Unicamp) e Ribeirão Preto (HC-USP) – e 100% dos testes realizados pela rede pública do município de São Paulo. Ao longo de dois anos e três meses, foram triados 194.714 recém-nascidos, com 14 casos de AME-5q confirmados, o que corresponde a uma prevalência ao nascimento de 1 para cada 13.908 nascidos vivos.
Resultados do estudo
Segundo o estudo, os bebês com resultado positivo na triagem receberam o primeiro resultado do exame com cerca de 11 dias de vida e iniciaram o tratamento com cerca de 28 dias, período consistente com o que a literatura internacional aponta como a janela mais favorável para intervenção, antes que a perda de neurônios motores avance de forma extremamente rápida e grave. A triagem por PCR em tempo real, que detecta a ausência do gene SMN1, responsável pela AME-5q, quando alterado, teve 100% de especificidade clínica no piloto, sem nenhum resultado falso-positivo, e pode identificar cerca de 95% dos casos da doença.
Entre os casos identificados, 78,6% apresentavam duas cópias do gene SMN2 (geralmente associado a formas mais graves da doença), e cerca de 64% manifestaram sintomas ainda nos dois primeiros meses de vida, o que reforça, segundo os autores, a importância de cada dia ganho pelo diagnóstico precoce.
“Crianças que tiveram acesso precoce ao tratamento desenvolvem marcos motores nunca vistos antes na história natural da doença, como é o caso de uma paciente que está com dois anos de idade que participou do estudo. Isso permite que essas pessoas se insiram muito mais facilmente na sociedade e possam estudar, trabalhar, ir ao cinema e fazer atividades que, para quem tem a forma grave da doença, são desafiadoras. Além disso, esse piloto traz dados que permitem aos gestores públicos tomar decisões baseadas em evidências e implementarem o programa de forma eficaz em diversas localidades”, relata Dra. Vanessa Romanelli, Supervisora do Laboratório de Biologia Molecular do IJC e responsável pelo projeto-piloto da AME-5q.
“Os dados mostram, em escala populacional, que a Triagem Neonatal Biológica para AME-5q é tecnicamente viável e capaz de antecipar o diagnóstico e o início do tratamento para os primeiros 30 dias de vida. Ao triar aproximadamente 195 mil recém-nascidos, o estudo produziu indicadores concretos sobre prevalência, tempo de resposta e organização do fluxo assistencial. É a ciência e a inovação na prática: transformar conhecimento científico em uma estratégia aplicável ao sistema de saúde, com potencial para orientar gestores públicos, ampliar o acesso ao diagnóstico precoce e mudar a trajetória de vida de crianças com AME-5q”, afirma Gustavo de Sá Schiavo Matias, Coordenador do Centro de Ensino, Pesquisa e Inovação (CEPI) do Instituto Jô Clemente (IJC).
Por que a Triagem Neonatal Biológica é central?
A AME-5q é uma doença neuromuscular genética rara que compromete a sobrevivência dos neurônios motores, levando à fraqueza e à atrofia muscular progressivas. Ela é causada por alterações no gene SMN1, localizado no braço longo (q) do cromossomo 5, e por isso é denominada AME-5q.
Como é o tratamento da AME-5q?
Até poucos anos atrás, a Doença Rara estava associada a um prognóstico grave, sobretudo nas formas de início precoce. Esse cenário mudou com a chegada de três terapias modificadoras da doença — nusinersena, risdiplam e onasemnogeno abeparvoveque —, hoje disponíveis pelo SUS conforme o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da AME 5q tipos 1 e 2. A indicação é feita de forma individualizada e depende de critérios clínicos, genéticos, regulatórios e de segurança.
Os dados disponíveis são consistentes ao demonstrar que o início precoce do tratamento está associado a melhores desfechos. Uma revisão sistemática, publicada em 2024, abrangendo experiências de múltiplos países, demonstrou a expansão internacional dos programas de Triagem Neonatal para AME-5q e a consolidação de metodologias moleculares para identificação precoce em recém-nascidos.
A lei nº 14.154/2021 ampliou o Programa Nacional de Triagem Neonatal para incluir a AME-5q, mas sua implementação em cobertura nacional ainda avança de forma desigual entre os estados.
É nesse contexto que o projeto-piloto paulista se torna referência: além de demonstrar a viabilidade técnica da triagem dentro do sistema público de saúde, o estudo produziu indicadores operacionais, tais como: tempos de coleta, transporte, confirmação diagnóstica e encaminhamento, que podem orientar a expansão do programa para outras regiões do país.
Esperar os primeiros sintomas pode significar esperar que a perda neuronal já esteja em curso. Na AME-5q, o diagnóstico pré-sintomático, preferencialmente na fase neonatal, não é apenas diagnosticar mais cedo, mas, criar a possibilidade de intervenção dentro de uma janela biológica altamente favorável e mudar trajetórias.
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