Durante anos, as infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) foram associadas principalmente aos jovens. Campanhas de prevenção, educação sexual nas escolas e o uso de preservativos consolidaram essa percepção.
Mas a realidade atual começa a contrariar esse padrão e de forma preocupante.
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Dados recentes mostram que as ISTs continuam em crescimento global, com milhões de novos casos todos os dias. O que chama a atenção dos especialistas, no entanto, é outro fenômeno: o aumento significativo de diagnósticos em adultos, muitos deles fora do perfil considerado “de risco”.
Segundo o urologista e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Dr. Alexandre Sallum, esse movimento não é coincidência. “O que estamos vendo hoje é uma mudança de comportamento. Adultos, muitas vezes em relações estáveis ou após separações, voltam à vida sexual sem a mesma preocupação com prevenção que tinham na juventude”, explica.
A falsa sensação de segurança
Um dos principais fatores por trás desse aumento é a percepção equivocada de que o risco diminui com a idade.
Diferente dos jovens, que cresceram expostos a campanhas intensas de prevenção, muitos adultos passaram anos em relacionamentos monogâmicos e, ao retomarem a vida sexual, simplesmente não incorporam o uso do preservativo como hábito.
Além disso, há uma associação comum entre ISTs e comportamentos considerados “de risco”, o que leva muitas pessoas a acreditarem que não estão expostas. “É um erro frequente. As infecções não escolhem perfil. Elas dependem de exposição, não de idade ou estilo de vida aparente”, reforça o médico.
Apps, relações casuais e novas dinâmicas sociais
Outro fator relevante é a transformação das relações afetivas e sexuais.
O crescimento dos aplicativos de relacionamento facilitou conexões rápidas e ampliou as possibilidades de encontros, especialmente entre adultos que voltam à vida social após divórcios ou longos períodos em relações estáveis.

Esse cenário, combinado com menor uso de preservativos, cria um ambiente propício para a disseminação de ISTs como:
- sífilis
- gonorreia
- clamídia
- HPV
- herpes genital
Muitas dessas infecções podem ser assintomáticas, o que contribui para a transmissão silenciosa.
O problema da infecção silenciosa
Um dos aspectos mais preocupantes das ISTs é justamente a ausência de sintomas em muitos casos.
Homens e mulheres podem permanecer infectados por longos períodos sem perceber, transmitindo a infecção para parceiros e, em alguns casos, desenvolvendo complicações tardias.
“No homem, algumas ISTs podem causar dor ao urinar, secreção uretral ou lesões. Mas em muitos casos, não há sinais evidentes. Por isso, o diagnóstico depende de investigação ativa”, explica o Dr. Sallum.
Sem tratamento adequado, essas infecções podem evoluir para problemas mais graves, como infertilidade, inflamações crônicas e aumento do risco de transmissão de outras doenças.
Por que os adultos estão mais vulneráveis?
Além da menor adesão ao preservativo, existem outros fatores que aumentam a vulnerabilidade nessa faixa etária:
- menor frequência de exames preventivos
- falta de acompanhamento médico regular
- desconhecimento sobre ISTs atuais
- maior confiança em parceiros recentes
- ausência de diálogo sobre histórico sexual
Existe uma ideia de que a prevenção é algo da juventude. Mas, na prática, o risco acompanha a atividade sexual ao longo da vida.
Prevenção: simples, mas negligenciada
Apesar do avanço da medicina, a principal forma de prevenção continua sendo direta:
- uso de preservativo em todas as relações
- realização de exames periódicos
- diálogo aberto entre parceiros
- atenção a qualquer sintoma urinário ou genital
Além disso, vacinas como a do HPV representam um avanço importante na proteção contra determinados vírus.
O novo cenário da saúde sexual IST
O Dr. Alexandre Sallum Bull reforça que aumento das ISTs entre adultos revela uma mudança importante: o comportamento precisa acompanhar a evolução da vida sexual. Se antes o foco da prevenção estava nos jovens, hoje é necessário ampliar o olhar. A saúde sexual não tem faixa etária e a vulnerabilidade também não.
As ISTs não desapareceram. Pelo contrário, estão se adaptando a novos comportamentos e atingindo públicos que, muitas vezes, não se reconhecem em risco. Ignorar esse cenário é permitir que infecções silenciosas avancem sem controle.
A informação continua sendo a principal ferramenta de prevenção em qualquer fase da vida.

Dr. Alexandre Sallum Bull CRM 129592 Médico Urologista Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
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