JesusAo se apresentar como editor de um texto atribuído a Abed Auait, um erudito que teria convivido com Jesus, Damn Beige constrói uma narrativa que desloca o olhar tradicional sobre essa figura bíblica e histórica. Em vez de uma abordagem centrada exclusivamente na fé, em O Silêncio do Apóstolo, o autor propõe acompanhar a trajetória do homem que atravessou séculos a partir de contextos humanos, culturais, políticos e filosóficos.

O enredo se desenvolve a partir desse testemunho ficcional, em que a experiência direta com Cristo revela um ambiente marcado por debates, deslocamentos e transformações. Ao longo do relato, episódios conhecidos ganham novas camadas de interpretação, sugerindo que a forma como histórias são registradas e transmitidas está profundamente ligada ao tempo, às escolhas e às perspectivas de quem as narra.

No decorrer do relato, Abed Auait não se limita a observar: ele organiza, interpreta e registra os ensinamentos daquele com quem conviveu, transformando experiências em reflexões sobre comportamento, ética e convivência. Para além de discursos grandiosos, o que emerge são situações cotidianas, diálogos e pequenas histórias que revelam como essas ideias eram compartilhadas e compreendidas dentro do grupo.

Mais Jesus

Entre esses registros, destacam-se passagens em que o ensinamento se afasta de qualquer lógica de recompensa ou punição, aproximando-se de uma ética fundamentada na consciência individual. É o caso da parábola do “Guardião do Jardim”, na qual o cuidado com o outro não nasce da expectativa de retorno, mas de uma compreensão mais profunda sobre o próprio agir.

— A bondade não existe porque há um prêmio à espera.
A justiça não depende de um juiz. O bem verdadeiro não busca
aprovação nem teme o abandono. Aquele que age corretamente por esperança
ou medo não compreendeu ainda o que significa ser justo. Porque o que é
justo não se faz por um senhor ausente ou presente —
mas por si mesmo, porque não pode ser diferente.
(O Silêncio do Apóstolo, p. 158)

Ao reunir essas reflexões e episódios, Damn Beige constrói uma narrativa que vai muito além da visão que posiciona Jesus exclusivamente como uma figura central do cristianismo. O autor propõe uma mudança de perspectiva: enxergá-lo como um pensador em movimento, cujas ideias emergem da experiência, do diálogo e da observação do mundo ao redor. Dessa forma, O Silêncio do Apóstolo amplia o campo de interpretação sobre sua trajetória e convida o leitor a reconsiderar não apenas esse personagem bíblico, mas também pelo viés histórico, além das formas pelas quais grandes narrativas continuam sendo construídas, transmitidas e compreendidas ao longo do tempo.

Ficha técnica:
Título: O silêncio do apóstolo
ISBN: 978-6501774794
Autor: Damn Beige
Páginas: 420
Preço: R$ 75 (físico) | R$ 70 (eBook)
Onde encontrar: Site do autor | Amazon

Sobre o autor: Damn Beige é um escritor-narrador, uma voz criada para investigar as zonas de silêncio da história. Em O silêncio do apóstolo, apresenta-se como editor de um manuscrito atribuído a Abed Auait, conduzindo o leitor por uma narrativa que cruza memória, política e fé. Seu olhar parte da suspeita: a de que toda história é também resultado de escolhas, disputas e apagamentos. Mais do que revelar respostas, Damn Beige se dedica a formular perguntas incômodas sobre o que foi preservado, transformado e o que talvez nunca tenha sido contado.

Yalorixá resgata saberes da Umbanda e conecta tradição às novas gerações

Em A Menina que Via Iemanjá, Katia Vaz Perez Alves Bacariça entrelaça memória familiar a histórias sobre Orixás e fundamentos da fé afro-brasileira

Nem toda herança se mede em bens materiais: algumas permanecem na fé, na memória e na ancestralidade. É desse legado que nasce A Menina que Via Iemanjá, obra da Yalorixá Katia Vaz Perez Alves Bacariça, que inaugura a Série Marina. O projeto presta homenagem à avó da autora, que inspira seu nome e simboliza a continuidade dessa tradição. Na obra, Katia compartilha ensinamentos da Umbanda e raízes espirituais que atravessam gerações.

Ao longo das páginas, a escritora apresenta a origem dos Orixás, seus domínios e influências na vida cotidiana.  Oxalá, Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxum, Iansã e Exu surgem não apenas como divindades cultuadas, mas também como referências simbólicas ligadas à justiça, coragem, equilíbrio, amor, movimento e sabedoria.

Outro eixo importante do livro está na contextualização histórica da Umbanda como expressão do sincretismo brasileiro, resultado do encontro entre tradições africanas, indígenas e europeias. Paralelamente ao conteúdo litúrgico, a publicação também celebra a linhagem familiar de Kátia e a trajetória do terreiro Reino de Iemanjá e Nanã, que, por mais de seis décadas, foi comandado pela avó da autora, a Marina.

“Compreender as marcas que os Orixás deixam em nossa essência é nos aproximar da nossa verdade mais profunda e do propósito que viemos cumprir nesta existência. É caminhar com mais clareza, aceitação e sentido”. (A Menina que Via Iemanjá, p.19)

Outras figuras centrais dessa história também ganham espaço, como o avô Waldemar, fundador do espaço, e Jane, mãe da escritora, descrita como presença essencial na condução dos trabalhos religiosos. Hoje, Katia segue à frente desse legado ao lado da irmã Débora. O livro ainda reúne relatos reais de superação e convivência comunitária, reforçando a Umbanda como espaço de escuta, solidariedade e esperança.

Através de testemunhos afetivos, A Menina que Via Iemanjá amplia o acesso à compreensão sobre a religião e mostra como fé e pertencimento podem atravessar gerações e seguir iluminando caminhos no presente.

“A principal mensagem do livro é mostrar que a espiritualidade pode ser uma fonte de força, acolhimento e transformação. A fé, quando vivida com respeito e verdade, pode ajudar pessoas a enfrentar dificuldades e seguir novos caminhos”, reflete Kátia.

Título do livro: A Menina que Via Iemanjá
Autora: Katia Vaz Perez Alves Bacariça
Editora: Clube de Autores
ISBN/ASIN: 978-6587013930
Páginas: 264
Preço: 17,00 (ebook) | 71,44 (físico)
Onde comprar: Amazon | Clube de autores

Sobre a autora: Kátia Vaz Perez Alves Bacariça é engenheira civil e escritora, nascida em Santos e residente em São Paulo. Cresceu em uma família profundamente ligada à Umbanda, tradição na qual foi criada desde a infância. Neta da yalorixá Marina e de Waldemar, fundador do Reino de Iemanjá, e filha de Mãe Pequena Jane, carrega em sua trajetória os ensinamentos espirituais e o compromisso com a caridade. Na literatura, transforma memórias e vivências familiares em narrativas sobre ancestralidade, fé e acolhimento.

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