Uma imagem divulgada pela NASA voltou a ganhar destaque nas redes sociais por apresentar a Terra com um aspeto irregular, repleto de saliências e depressões. Rapidamente apelidada de “Terra em forma de batata”, a representação alimentou dúvidas e interpretações erradas entre utilizadores que acreditaram estar perante o verdadeiro formato do planeta.

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No entanto, a imagem não retrata a geometria física da Terra. Trata-se de uma representação do geóide, um modelo científico utilizado para descrever as variações do campo gravitacional terrestre.

Produzido a partir da integração de mais de mil milhões de medições recolhidas durante cerca de 15 anos por 19 satélites, incluindo as missões GRACE, da NASA, e GOCE, da Agência Espacial Europeia (ESA), o modelo revela pequenas diferenças no potencial gravítico da Terra provocadas pela distribuição desigual de massa no interior do planeta.

As cores e deformações visíveis não correspondem a montanhas gigantes ou depressões reais. Em vez disso, representam diferenças muito sutis na forma como a gravidade atua em diferentes regiões. Para tornar essas variações perceptíveis, os cientistas recorrem a uma ampliação vertical extrema. À escala real, a Terra continuaria a apresentar-se praticamente como um esferóide oblato: ligeiramente achatada nos polos e abaulada no equador.

Segundo o Pós-PhD em Neurociências e especialista em Biologia Molecular e Genômica, Dr. Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues, a imagem tornou-se um exemplo de como representações científicas podem ser facilmente mal interpretadas quando são divulgadas sem contexto.

“O geóide não mostra a forma da Terra. Mostra uma superfície matemática que representa o comportamento do campo gravitacional do planeta. As deformações visíveis são uma forma de traduzir algo invisível aos nossos olhos e foram amplificadas milhares de vezes apenas para facilitar a visualização.”

nasa

O investigador explica que, embora muitas pessoas interpretem a figura como uma fotografia do planeta, trata-se de uma ferramenta de elevada precisão utilizada pela geodesia, geofísica e oceanografia.

“Se essas deformações fossem apresentadas na escala real, praticamente desapareceriam. A diferença entre os pontos mais elevados e mais baixos do geóide é da ordem das centenas de metros, enquanto o diâmetro da Terra ultrapassa os 12.700 quilómetros. Visualmente, continuaríamos a observar um planeta quase perfeitamente esférico.”

Além de ajudar a compreender a estrutura interna da Terra, o geóide é utilizado em diversas aplicações científicas e tecnológicas, incluindo a determinação precisa de altitudes, a monitorização da subida do nível médio do mar, o estudo do ciclo hidrológico, da circulação oceânica e das alterações na distribuição de água provocadas por secas, cheias e degelo.

Para Fabiano de Abreu, o episódio demonstra também um desafio crescente da comunicação científica na era digital.

“A ciência produz modelos para explicar fenómenos complexos, mas esses modelos precisam de contexto. Quando uma representação técnica é retirada do seu enquadramento, torna-se fácil confundi-la com a realidade. A divulgação científica tem precisamente o papel de traduzir esses conceitos sem perder o rigor.”

A imagem conhecida como “Terra em forma de batata” não revela um planeta deformado. Revela, antes, um dos mapas gravitacionais mais precisos alguma vez produzidos, permitindo aos cientistas observar um fenómeno invisível: as pequenas variações do campo gravitacional terrestre que influenciam desde a circulação dos oceanos até à precisão dos sistemas modernos de navegação por satélite.

Vídeo Nasa Terra

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