Houve um tempo em que o futebol brasileiro cabia num apelido.

Pelé.

Didi.

Zito.

Garrincha.

Zico.

Tita.

Falcão.

Magrão.

Nomes que pareciam ter sido escolhidos no recreio, no campinho de terra, no portão da escola ou durante uma briga de rua. Ninguém precisava saber o nome completo de Garrincha para entender que ele faria alguma coisa que o nome de batismo jamais conseguiria explicar.

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O apelido já entrava em campo driblando.

Pelé não parecia nome de cartório. Parecia barulho de bola batendo na trave.

Didi tinha a leveza de quem poderia jogar de meias.

Zico parecia coisa rápida, um risco de giz atravessando a defesa.

Magrão já chegava com um corpo inteiro dentro da palavra.

Falcão não precisava de sobrenome porque já tinha asas.

Hoje, não.

Hoje o jogador entra em campo com nome, sobrenome, segundo sobrenome, nome artístico, marca registrada, assessoria de imprensa e possibilidade futura de linha própria de perfumes.

Não é mais o ponta.

É o Gabriel alguma coisa.

Não é mais o meia.

É o Bruno qualquer sobrenome.

Não é mais o centroavante.

É o João Pedro de sobrenome internacional, ainda que tenha nascido a três ruas do mercadinho do seu Nivaldo.

Nada contra João Pedro.

Meu filho, inclusive, chama-se João Pedro.

O nome composto sempre existiu. Tivemos João Paulo, ponta esquerda. Tivemos Carlos Alberto, Paulo Roberto, Luís Carlos. Eram nomes de gente. Nomes que a mãe gritava da janela:

“Carlos Alberto, vem tomar banho!”

O que mudou não foi o nome composto.

Mudou a embalagem.

Antes, o jogador tinha dois nomes porque seus pais haviam escolhido dois nomes.

Hoje, ele tem nome e sobrenome como quem apresenta uma coleção de inverno.

Há alguma coisa de loja de shopping no futebol contemporâneo.

O jogador não parece apenas jogar.

Parece estar lançando uma marca.

Você ouve a escalação e tem a impressão de que alguém apresentará, logo depois, uma linha de relógios, uma franquia de barbearias ou um empreendimento imobiliário próximo ao litoral.

É o futebol de grife.

Ou, talvez, o futebol que quer ter grife.

Porque grife de verdade não se anuncia.

Pelé era uma grife sem precisar de logotipo.

Garrincha era uma marca impossível de falsificar.

Zico não precisava colocar o próprio nome em letras douradas na chuteira. O nome já estava escrito no movimento.

A grife vinha da jogada.

Hoje, muitas vezes, a jogada vem depois da grife. Quando vem.

Há jogadores com nomes que parecem ocupar mais espaço na camisa do que eles ocupam no jogo.

Correm com elegância publicitária.

Caem em câmera lenta.

Reclamam com dicção de coletiva de imprensa.

Fazem um gesto ensaiado depois de um passe para o lado.

O futebol ficou cafona.

Não cafona como uma camisa florida, um sofá de veludo ou uma música romântica tocada num teclado eletrônico. Essas coisas podem ter uma beleza irresistível.

O futebol ficou cafona de outro modo.

Ficou cafona porque deseja parecer sofisticado.

A verdadeira cafonice começa quando alguém precisa provar que não é cafona.

O futebol brasileiro já usou mullet, bigode, meião caído, camisa para dentro do calção e números tortos nas costas. E era bonito.

Sócrates entrava em campo parecendo ter acabado de sair de uma assembleia ou de um bar. Falcão tinha cabelo de cantor italiano. Zico suava como um homem que realmente trabalhava. Garrincha carregava as pernas tortas sem procurar um especialista em imagem pessoal.

Ninguém era produzido.

Eram jogadores.

Hoje há penteados geométricos, tatuagens conceituais, comemorações registradas, iniciais bordadas, contratos de imagem e uma enorme preocupação em parecer protagonista.

O problema é que protagonismo não se parece.

Acontece.

É possível que esta implicância seja apenas coisa de velho.

Todo homem que envelhece começa a desconfiar do futebol contemporâneo. Primeiro reclama da chuteira colorida. Depois, do cabelo. Em seguida, percebe que está comparando cada lateral-direito a Carlos Alberto Torres e cada ponta a Garrincha.

É um caminho sem volta.

futebol

Daqui a pouco, a pessoa estará dizendo que jogador bom mesmo era aquele que atravessava o campo de ônibus e ainda chegava antes da partida.

Mas minha desconfiança não é exatamente contra os jogadores de hoje.

É contra esta necessidade de transformar tudo em produto antes que se transforme em história.

O menino ainda nem deu o primeiro drible e já tem empresário.

Ainda não fez um gol importante e já possui um gesto próprio de comemoração.

Ainda não virou ídolo e já é chamado de fenômeno.

Ainda não tem história, mas já tem documentário.

Talvez o futebol tenha começado a piorar quando passou a se preocupar demais em parecer grande.

A grandeza antiga era quase distraída.

Pelé fazia o gol e sorria.

Garrincha driblava porque o adversário estava na frente.

Zico batia a falta porque havia uma barreira e, atrás dela, um gol.

Não havia a obrigação de construir uma narrativa de marca. A narrativa nascia do que acontecia dentro do campo.

Agora, às vezes, parece o contrário.

A narrativa está pronta.

Só falta o futebol.

Talvez seja mera coincidência que o nosso jogo tenha perdido parte da alegria justamente na era dos nomes e sobrenomes.

Mas gosto de imaginar que não.

Gosto de pensar que o apelido libertava o jogador do currículo.

Quem entrava em campo como Pelé não precisava representar Edson Arantes do Nascimento.

Quem era Garrincha podia deixar Manoel Francisco dos Santos no vestiário.

O apelido retirava o peso da identidade civil.

Era quase uma fantasia.

E futebol sempre precisou de fantasia.

O nome e o sobrenome exigem compostura.

O apelido permite o improviso.

O nome e o sobrenome querem construir uma carreira.

O apelido quer jogar bola.

O nome e o sobrenome chegam à coletiva.

O apelido chega à área.

Talvez o nosso futebol não precise de novos esquemas táticos, centros de excelência ou relatórios de desempenho.

Talvez precise apenas de alguém capaz de olhar para um menino chamado Gabriel Henrique de alguma coisa e dizer:

“A partir de hoje, você é o Bicudo.”

Pode parecer pouco.

Mas talvez o futebol brasileiro só esteja esperando que alguém lhe devolva um apelido.

André Luís Oliveira

tio Visconde

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