“Os pais nem imaginam”: Discord, Reddit e os perigos ocultos que atraem crianças na internet
*Sheron Mendes
Segundo dados da UNICEF, cerca de 1 em cada 5 crianças e adolescentes brasileiros entre 12 e 17 anos sofreu algum tipo de violência sexual facilitada pela tecnologia em apenas um ano. Isso representa aproximadamente 3 milhões de jovens expostos a aliciamento, chantagem, coerção para envio de imagens íntimas ou circulação de conteúdo sexual sem consentimento.
Houve um tempo em que os pais temiam a rua. A bicicleta sem freio, o tombo no meio-fio, o joelho ralado, a bola que atravessava a avenida, o estranho parado na esquina. A infância tinha poeira nos pés, suor no cabelo e uma liberdade vigiada pelo grito da mãe no portão. Hoje, o perigo não precisa mais estar na rua. Ele entra pelo Wi-Fi.
A criança permanece no quarto, sentada no sofá, dentro de casa, às vezes ao lado dos próprios pais. Mas, pela tela, atravessa portas que nenhum adulto abriu, entra em comunidades que a família desconhece e assiste a cenas que antes pertenciam aos porões mais escuros da vida adulta. Enquanto a infância parece protegida entre quatro paredes, muitos meninos e meninas estão sendo apresentados a uma violência que chega sem bater, sem fazer barulho e sem deixar marcas visíveis no corpo.

+ NOTÍCIAS NO GRUPO NM DO WHATSAPP
É nesse cenário que plataformas mais fechadas, como Reddit e Discord, passaram a preocupar autoridades, pesquisadores e investigadores. Diferentemente das redes sociais tradicionais, esses ambientes funcionam em fóruns anônimos, servidores privados e comunidades de difícil monitoramento. Muitos pais sequer sabem como funcionam. Outros nunca ouviram falar. O palco perfeito para a violência extrema sem monitoramento e, pior, sem ninguém para responsabilizar, totalmente anônima. Os pais nem imaginam, mas seus filhos já estão lá.
Em 2026, um relatório do Núcleo de Observação Digital da Polícia Civil de São Paulo revelou o monitoramento de mais de 1,2 mil alvos ligados a crimes digitais envolvendo crianças e adolescentes. As investigações apontam circulação de pornografia extrema, automutilação, incentivo ao suicídio, violência sexual, humilhações coletivas e transmissões violentas em tempo real. Aproximadamente 359 crianças e adolescentes precisaram ser resgatados de situações classificadas como risco iminente.
O problema é que a violência digital não chega mais como exceção. Ela aparece diluída e compartilhada como entretenimento. Um vídeo de humor leva a outro. Um meme leva a um fórum. Um link leva a um servidor privado. E, quando os adultos percebem, a infância já foi atravessada por imagens, linguagens e estímulos que o cérebro infantil ainda não possui maturidade emocional para compreender. E posso afirmar com convicção, muitos adultos também não teriam estômago para encarar o conteúdo desses canais, eu não tive.
Mas o cérebro humano não diferencia completamente aquilo que é vivido daquilo que é assistido repetidamente. A neurociência já demonstrou que exposição contínua à violência altera circuitos ligados à empatia, regulação emocional e percepção de ameaça, especialmente durante a infância e adolescência, períodos em que o cérebro ainda está em intensa reorganização neural.
Estamos falando de crianças crescendo em contato diário com conteúdos que nenhuma geração anterior teve acesso tão cedo. O que antes era impensável para uma criança tornou-se rotina: assistir agressões; acompanhar humilhações públicas; consumir pornografia violenta; ver desafios autodestrutivos; presenciar estupros transformados em espetáculo digital. E talvez exista algo ainda mais grave acontecendo: isso tudo está sendo normalizado.
A infância brasileira está crescendo em um ambiente onde a violência deixou de interromper o entretenimento para se tornar parte dele. O abominável virou resultado do algoritmo para retenção de atenção. E plataformas digitais descobriram que medo, erotização e violência mantêm usuários conectados por mais tempo. A discussão vai muito além de apenas “tempo de tela”, ela ficou pequena demais diante da dimensão do problema.
*Sheron Mendes é Bióloga, especialista em Neurociência do Comportamento e professora dos cursos de pós-graduação em Educação na UNINTER.
Leia + sobre tecnologia e ciência