Quando a IA cria e pensa pela criança

Leia + sobre  tecnologia e ciência

Quando a IA cria e pensa pela criança

“Toda criança é um artista. O problema é como permanecer artista depois de crescer”, teria dito Pablo Picasso. Hoje, precisamos fazer uma outra pergunta: como as crianças podem continuar sendo artistas na era da IA?

Quando a máquina inventa a história, soluciona o problema e nomeia o afeto, passa a ocupar justamente o espaço onde nascem a curiosidade, a imaginação e a expressão própria.

A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025 mostra a dimensão da mudança: 42% dos usuários de internet entre 9 e 10 anos já utilizaram ferramentas de IA; entre os de 13 e 14 anos, são 75%. O que estamos formando quando a IA começa a pensar e criar pelas crianças? Na infância, o uso dessas tecnologias pode subtrair experiências essenciais dessa fase da vida: o contato com o mundo real, a brincadeira, o tédio, a frustração, a leitura e a troca com outras pessoas. Com a IA, o risco não é apenas ocupar o tempo, mas substituir parte do esforço de elaborar, aprender e criar.

A criatividade não é um talento decorativo nem um privilégio dos artistas. Como propôs o psicanalista Donald W. Winnicott, a criatividade é uma dimensão fundamental do viver: a possibilidade de atribuir sentido às experiências e de sentir que a vida nos pertence. É ela que nos permite imaginar alternativas, suportar o que ainda não é sabido e transformar vivências em palavras, desenhos e brincadeiras, que ajudam na nossa conexão com o outro. É nesse jogo de representações que a criança pode começar a descobrir quem é e a expressar sua visão de mundo.

Deixo isso explícito no meu livro infantil Era uma vez uma história. Trago experiências e ensinamentos claros às crianças a partir de uma história que nasce dentro da cabeça de uma escritora e procura um caminho para sair dali, tornar-se livro e conhecer outras cabeças. Porém, ela não chega pronta: em sua travessia, ela precisa suportar a dúvida, sonhar, escutar e ser escutada para se desenvolver e, enfim, encontrar seu lugar no mundo.

A IA opera numa outra lógica, preenchendo brechas com respostas e certezas. Pode ser uma ferramenta potente para muitas atividades, mas não deve ocupar o lugar em que a criança deveria experimentar, errar e se surpreender. Se toda dúvida encontra resposta imediata e todo começo recebe continuação automática, tornamo-nos intolerantes ao vazio e ao conflito, que são matérias-primas da imaginação.

A IA é uma realidade e não se trata de simplesmente combatê-la. O desafio é preservar condições para que as crianças continuem sendo autoras de suas experiências. Elas precisam de tempo vago, leitura, conversa e brincadeira livre. Precisam descobrir o que desejam contar e de que forma. É desse movimento que precisamos cuidar: da possibilidade de imaginar, atribuir sentidos e transformar aquilo que recebemos. E a leitura em família pode ser um bom começo.

*Carla Meneghini é psicanalista e autora de Era uma vez uma história

 

+ NOTÍCIAS  NO GRUPO NM DO WHATSAPP