Perda gestacional: entenda o que é luto perinatal e como acolher a perda de um bebê
Psicóloga perinatal explica como lidar com a perda de um bebê na gestação, no parto ou nos primeiros dias de vida e por que frases bem intencionadas podem piorar a dor
A perda de um bebê durante a gestação, no parto ou nos primeiros dias de vida ainda é cercada por silêncio, frases que machucam e falta de acolhimento adequado às famílias.Casos públicos como os da apresentadora Tati Machado, da cantora Lexa e da atriz Micheli Machado ajudaram a ampliar a discussão sobre o luto perinatal. Para a psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, fundadora do Instituto MaterOnline, falar sobre o tema é fundamental para combater o julgamento e a solidão vivida por muitas mães e pais.
No Brasil, esse acolhimento passou a ter previsão específica na legislação desde maio de 2025, com a sanção da Política Nacional de Humanização do Luto Materno e Parental. A norma prevê apoio psicológico, exames para apurar a causa da morte, acolhimento mais estruturado nas maternidades e o direito de atribuir nome ao natimorto.
A especialista responde às dúvidas mais comuns sobre como lidar com o luto gestacional e neonatal, o que dizer – e o que evitar – diante desse tipo de perda, e como a escuta pode ajudar.
1) O que é o luto perinatal?
O luto perinatal ocorre quando há a perda de um bebê durante a gestação ou logo após o nascimento. Ele não se restringe à ausência física, mas inclui também perdas simbólicas, como o luto pelo sexo desejado do bebê, pela impossibilidade de ter o parto planejado ou por dificuldades na amamentação. Todas essas experiências envolvem a interrupção de expectativas e precisam ser acolhidas.
2) Como cada pessoa vive o luto perinatal e quando buscar ajuda profissional?
O luto perinatal é uma experiência única e profundamente pessoal. Para algumas pessoas, o processo pode durar semanas, para outras, meses ou até mais tempo. Não há um prazo certo ou errado para lidar com essa perda, já que cada um tem seu próprio ritmo para processar a dor e as mudanças que ela traz. O mais importante é observar como o luto afeta o cotidiano. Se a tristeza começar a interferir na realização de atividades diárias, houver isolamento prolongado ou pensamentos de desesperança, pode ser o momento de buscar apoio especializado. Psicólogos e outros profissionais de saúde mental estão preparados para oferecer acolhimento e suporte durante esse processo.
3) Como lidar com a perda de um bebê?
Lidar com a perda envolve validar os próprios sentimentos e dar espaço para que emoções, como tristeza ou culpa, sejam vividas sem repressão. Guardar lembranças do bebê, como roupas ou fotos, pode ajudar a transformar a dor em algo significativo. Apoio psicológico e a participação em grupos de apoio também são fundamentais para auxiliar no processo de superação.
4) Quais práticas ajudam a criar uma despedida significativa?
Hospitais humanizados permitem que os pais vejam e segurem o bebê, caso desejem, e oferecem a opção de guardar recordações, como fotos, a marca do pezinho ou um pedacinho de cabelo. Essas ações ajudam a dar sentido à despedida. Em países como a Inglaterra, berços refrigerados são usados para que os pais possam passar mais tempo com o bebê antes do sepultamento.
5) Como os hospitais podem acolher melhor famílias enlutadas?
Separar mães que enfrentaram perdas de alas onde estão bebês recém-nascidos é uma medida fundamental para reduzir o sofrimento. Além disso, o acolhimento humanizado, com profissionais capacitados e tempo adequado para a despedida, pode aliviar a dor das famílias.
6) O pai também sente o luto?
Sim, e ele precisa ser incluído no processo. Muitas vezes, o pai é pressionado a ser “forte” para apoiar a parceira, mas ele também vivencia a perda e necessita de espaço para expressar sua dor. O apoio mútuo no casal é essencial para fortalecer a relação e facilitar a superação.
7) Existem outros tipos de luto no período perinatal?
Sim. Além da perda física, o luto pode surgir em situações como receber um diagnóstico inesperado, descobrir que o sexo do bebê não era o desejado ou não conseguir amamentar. Essas perdas simbólicas também geram sofrimento e merecem acolhimento.
8) Por que evitar frases que minimizem a dor da perda?
Frases como “foi melhor assim” ou “Deus quis dessa forma” podem parecer inofensivas, mas invalidam os sentimentos de quem está enfrentando a perda. É importante oferecer escuta atenta, sem julgamentos, e respeitar o momento de luto.
9) Por que é importante falar sobre luto perinatal?
Discutir o tema ajuda a romper tabus, validar o sofrimento das famílias e incentivar práticas de acolhimento mais empáticas e humanizadas.

Sobre Rafaela Schiavo
Profª-Dra. Rafaela de Almeida Schiavo é psicóloga perinatal e fundadora do Instituto MaterOnline. Desde sua formação inicial, dedica-se à saúde mental materna, sendo autora de centenas de trabalhos científicos com o objetivo de reduzir as elevadas taxas de alterações emocionais maternas no Brasil. Atua principalmente nos seguintes temas: Desenvolvimento pré-natal e na primeira infância; Psicologia Perinatal e da Parentalidade.
Mães de braços vazios: um amor sobrevive à ausência
*Por Flavia Camargo
Costumamos associar a maternidade à presença física do filho: o colo, a amamentação, as fraldas, o crescimento e a construção cotidiana de memórias. No entanto, existe um universo de mulheres que atravessaram a perda gestacional ou neonatal e que também são mães, embora o mundo, muitas vezes, relute em conferir a elas esse reconhecimento legítimo.
Ser mãe não é um cargo que se exerce apenas diante de uma plateia ou de um berço cheio; é uma transformação profunda do ser. Quando um filho morre, a sociedade costuma projetar sobre a mulher uma expectativa cruel de que ela “retome a vida” e volte a ser quem era antes. Existe uma pressa externa para que o luto seja superado. Mas essa “volta” é impossível.
A maternidade não é uma vestimenta que se tira, nem algo que se possa deixar de ser por conta da distância ou do silêncio. Uma vez que o vínculo é estabelecido, a identidade feminina se altera de forma definitiva. A maternidade é, essencialmente, um estado interior e irreversível, que não depende da permanência para validar sua existência. Depois que esse laço é criado, algo se transforma na estrutura emocional da mulher. Ela será mãe para sempre, com ou sem o filho ao alcance dos olhos.
É um equívoco imaginar que a falta do contato teria o poder de diminuir um laço que transcende a matéria e se instala na alma. Infelizmente, a inabilidade social para lidar com temas delicados e a imperícia em acolher a dor alheia fazem com que o luto materno seja frequentemente silenciado ou invisibilizado. Esse isolamento impõe um desafio extra a quem já carrega o peso de uma saudade eterna, transformando o luto em uma jornada solitária e, por vezes, invalidada pelo entorno.
Se você conhece uma mãe de braços vazios, não tente oferecer clichês que busquem apressar a sua cura. Em vez disso, procure se colocar disponível para escutá-la e validar sua história. Lembre-se de que ser mãe não é apenas viver um relacionamento que pode ser registrado em fotografias, mas carregar uma marca indelével no coração, que permanece viva para além de qualquer partida.
*Sobre a autora: Autora de Enquanto vocês crescem, Flavia Camargo é mãe de Igor, Lucas e Luisa. Carioca, advogada e escritora com oito livros publicados desde 2010, entre romances, biografias sobre maternidade e luto materno, poesias e literatura infantil.
Instagram: @flaviacamargoescritora
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