Estudo revela subdiagnóstico de demência no Brasil
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Uma análise inédita de dados hospitalares brasileiros acende um alerta para um possível subdiagnóstico da Hidrocefalia de Pressão Normal (HPN), doença neurológica tratável que afeta principalmente idosos e frequentemente é confundida com o Alzheimer, envelhecimento, demências e outras doenças comuns nessa faixa etária. Os resultados preliminares, ainda não publicados em periódico científico, serão apresentados durante o Congresso Mundial de Hidrocefalia, que acontece pela primeira vez no Brasil entre os dias 31 de julho e 3 de agosto, em São Paulo.
O levantamento, realizado pelo Grupo IAG Saúde, identificou 3.112 pessoas com 60 anos ou mais diagnosticadas com HPN em 4.226 internações registradas entre janeiro de 2021 e dezembro de 2025. Foi observada a predominância do sexo masculino (55,1%), enquanto o sexo feminino representou 44,9% da população estudada. A idade média dos pacientes era de 77 anos, e 83% tinham 70 anos ou mais.
Na classificação hierárquica dos pacientes, 1.805 indivíduos (58%) apresentaram registro de HPN como diagnóstico principal em pelo menos uma internação, enquanto 1.307 (42%) permaneceram classificados exclusivamente como HPN com diagnóstico secundário durante todo o período analisado.
Além dos pacientes já diagnosticados, os pesquisadores encontraram outros grupos que chamaram a atenção: 1.531 idosos apresentavam simultaneamente alterações da marcha e comprometimento cognitivo, mas sem registro de HPN, enquanto outros 1.840 tinham apenas o diagnóstico de hidrocefalia não especificada.
Embora esses dados não permitam afirmar que todos esses pacientes tenham Hidrocefalia de Pressão Normal, eles levantam uma questão importante para especialistas: quantos idosos com dificuldade para andar, perda de memória e perda de autonomia podem estar sendo tratados apenas como portadores de demência ou como consequência natural do envelhecimento?
“A Hidrocefalia de Pressão Normal continua sendo uma doença pouco lembrada. Existe uma população idosa que para de caminhar bem, perde memória, começa a cair e apresenta incontinência urinária. Muitas vezes cada sintoma é tratado isoladamente, quando o conjunto deles pode indicar uma doença neurológica potencialmente tratável”, afirma o neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP Dr. Fernando Gomes, que também presidirá o Congresso Mundial de Hidrocefalia.
O presidente do Grupo IAG Saúde, Renato Couto, pontua que, à medida que a população envelhece, torna-se cada vez mais importante diferenciar as diversas condições que afetam a cognição e a mobilidade dos idosos. “A produção de evidências sobre a realidade brasileira é fundamental para qualificar o debate científico, orientar políticas de saúde e ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento de doenças que ainda recebem pouca atenção”, fala.
Doença é facilmente confundida com o envelhecimento
A Hidrocefalia de Pressão Normal provoca, principalmente, três manifestações clínicas: dificuldade para caminhar, comprometimento cognitivo e incontinência urinária.
Como esses sintomas também aparecem em doenças neurodegenerativas, problemas ortopédicos e alterações urológicas, muitos pacientes deixam de ser encaminhados para investigação especializada.
Segundo Dr. Fernando Gomes, reconhecer precocemente essa combinação de sinais pode modificar completamente a trajetória do paciente.
“Nem toda perda de memória é Alzheimer. Nem toda dificuldade para caminhar faz parte do envelhecimento. Em muitos casos, existe uma doença que pode ser identificada e tratada quando o diagnóstico é feito no momento adequado”, fala.
Internações por outras doenças apresentam piores desfechos
O estudo também mostrou que os pacientes com HPN internados por outras doenças apresentaram evolução hospitalar significativamente mais complexa do que aqueles internados diretamente para tratamento da hidrocefalia.
Enquanto as internações cujo diagnóstico principal era HPN tiveram permanência média de 5,9 dias e mortalidade hospitalar de 1,7%, os pacientes internados por outras causas, mas que também possuíam HPN, permaneceram em média 12,5 dias hospitalizados e apresentaram mortalidade de 11,5%.
As readmissões não planejadas também foram mais frequentes (7,2% contra 3,1%), assim como complicações infecciosas graves (6,5% versus 1,9%).
Entre as principais causas de internação desses pacientes estavam:
- infecção urinária;
- pneumonia e outras infecções respiratórias;
- sepse;
- acidente vascular cerebral (AVC);
- hemorragia cerebral.
Os pesquisadores ressaltam que o estudo não permite estabelecer relação de causa e efeito entre a HPN e esses desfechos. Ainda assim, os dados sugerem que pacientes cujo diagnóstico ocorre tardiamente chegam ao hospital em condições clínicas mais complexas.
“Não podemos afirmar que o atraso no diagnóstico causou essas complicações. Mas os dados nos fazem refletir se reconhecer mais cedo a perda da marcha, o declínio cognitivo e a perda de autonomia poderia modificar a história clínica de muitos desses idosos”, explica Dr. Fernando Gomes.
SUS concentra mais atendimentos de urgência
Outro dado que chamou atenção foi a diferença entre o perfil das internações no Sistema Único de Saúde e na saúde suplementar.
Na rede privada, 67,5% das internações diretamente relacionadas à HPN ocorreram de forma eletiva. Já no SUS, 63,8% aconteceram em caráter de urgência ou emergência.
O tempo médio de internação também foi maior na rede pública: 8,8 dias, contra 5,1 dias na saúde suplementar.
Para os especialistas, os resultados não significam diferenças na gravidade dos pacientes, mas levantam hipóteses importantes sobre acesso ao diagnóstico, encaminhamento para especialistas, disponibilidade de exames e organização da linha de cuidado.
“Não se trata de responsabilizar o SUS, que atende uma população extremamente complexa. O desafio é construir uma linha de cuidado para que o idoso seja investigado antes de perder a autonomia e não apenas quando chega ao hospital em situação de urgência”, afirma o neurocirurgião.
Diagnóstico precoce pode preservar autonomia
O tratamento da hidrocefalia de pressão normal pode incluir a implantação de uma derivação ventricular, popularmente conhecida como válvula, responsável por controlar o excesso de líquido cefalorraquidiano.
Entretanto, nem todos os pacientes são candidatos ao procedimento. A indicação depende de avaliação especializada, exames de imagem e testes clínicos específicos capazes de estimar a possibilidade de benefício com a cirurgia.
Para Dr. Fernando, o maior desafio brasileiro está antes mesmo do tratamento. “Precisamos ensinar a população a reconhecer os sinais, capacitar profissionais da atenção primária, geriatras, neurologistas, fisioterapeutas e equipes de enfermagem para suspeitar da doença e encaminhar esses pacientes aos centros especializados. Não adianta ter tratamento disponível se o paciente nunca recebe o diagnóstico.”
O estudo
Os dados analisados pelo Grupo IAG Saúde são provenientes da Plataforma DRG Brasil e representam hospitais participantes da base de dados.
Por se tratar de um estudo observacional retrospectivo, os resultados são preliminares e não demonstram relação de causalidade. A análise exploratória de pacientes com sinais compatíveis com HPN não corresponde a diagnóstico clínico nem representa estimativa de prevalência da doença no Brasil.
Mesmo assim, pelo número de pacientes avaliados e pela padronização das informações hospitalares, o levantamento oferece uma das maiores análises de mundo real já realizadas sobre a trajetória hospitalar da hidrocefalia de pressão normal no país.
“Este levantamento evidencia oportunidades de aprimorar a jornada dos pacientes e reforça a necessidade de olhar com mais atenção para a trajetória deles dentro do sistema de saúde. Esperamos que esses resultados contribuam para ampliar a suspeição clínica e incentivar o diagnóstico precoce da doença”, diz Renato Couto.
“Em um Brasil que envelhece rapidamente, preservar a capacidade de andar, pensar e viver com autonomia precisa ser uma prioridade de saúde pública. A Hidrocefalia de Pressão Normal não pode continuar invisível. Quando reconhecida no momento certo, ela pode mudar a história de uma pessoa idosa e de toda a sua família”, conclui Dr. Fernando Gomes.
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