A expansão das grandes redes, a profissionalização do setor e a multiplicação de modelos de baixo custo elevaram a concorrência no mercado brasileiro de academias. Mas o crescimento dos grandes grupos não significa, necessariamente, o desaparecimento das operações menores. Para Anderson Moraes, CEO da Seven7Play e especialista em negócios fitness, academias independentes ainda podem competir, desde que parem de tentar reproduzir exatamente a estratégia de empresas que possuem escala muito maior.
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A discussão ganha peso diante do tamanho do setor. A Health & Fitness Association (HFA) aponta atualmente mais de 31 mil estabelecimentos fitness e 7,9 milhões de usuários de academias no Brasil. Ao mesmo tempo, a ACAD Brasil informa que o país já possui mais de 500 marcas de redes e franquias nacionais, mas destaca que academias independentes com apenas uma ou duas unidades continuam apresentando casos bem-sucedidos no mercado.
“Existe espaço, mas não para fazer mais do mesmo. Uma academia independente não tem o poder de compra, a verba de marketing ou a escala de uma grande rede. Se tentar competir apenas nesses quesitos, começa em desvantagem. A pergunta precisa ser outra: o que esse negócio consegue entregar que uma operação padronizada tem mais dificuldade de oferecer?”, afirma Anderson.
Disputar preço pode ser uma armadilha
Uma das principais diferenças está justamente na escala. Grandes redes conseguem distribuir custos entre centenas de unidades, negociar equipamentos e serviços em grandes volumes e utilizar modelos altamente padronizados. A força desse movimento pode ser observada em empresas que já ultrapassaram fronteiras nacionais: atualmente, apenas a Smart Fit informa possuir mais de 2 mil unidades em 16 países.
Para uma academia independente, tentar responder a essa expansão reduzindo continuamente a mensalidade pode comprometer margem, capacidade de investimento e qualidade da operação.
“Preço importa, evidentemente, mas ele não pode ser a única estratégia. A pequena academia precisa disputar valor percebido. Pode ser pelo atendimento, pelo professor que conhece o aluno, por uma especialização, pela experiência ou pela capacidade de criar pertencimento. Se o único argumento for mensalidade, a disputa fica muito mais difícil”, explica Moraes.
O próprio mercado tem se diversificado. Dados do Panorama Setorial Fitness Brasil mostram que academias são o local escolhido para a prática de exercícios por 30% dos participantes pesquisados, enquanto musculação, corrida e caminhada aparecem entre as atividades mais praticadas. O levantamento também aponta a existência de oportunidades ainda pouco exploradas: 72% das academias brasileiras, por exemplo, não oferecem atividades outdoor.
Na avaliação de Anderson, esses espaços ajudam a explicar por que operações especializadas, estúdios e negócios voltados a públicos específicos podem encontrar mercado mesmo diante das grandes redes.
Proximidade pode se transformar em vantagem competitiva
Se escala favorece as grandes empresas, proximidade pode favorecer as menores. Uma academia independente consegue observar mais rapidamente mudanças no comportamento dos alunos, adaptar horários, testar serviços, modificar processos e desenvolver ações voltadas às características do bairro ou da comunidade em que atua.
“Uma rede precisa criar processos que funcionem para centenas de unidades. O independente pode tomar uma decisão olhando para aquela comunidade específica. Essa agilidade tem valor, desde que o empresário conheça os números da operação e saiba transformar proximidade em estratégia”, diz.
Para Anderson, um dos indicadores mais importantes está justamente na capacidade de manter o aluno ativo. A aquisição de novas matrículas perde valor quando a academia não acompanha frequência, satisfação e abandono.
“Às vezes o empresário está completamente preocupado com quantas matrículas vendeu no mês e não sabe quantos alunos começaram a desaparecer. Antes do cancelamento vem a falta, a perda do vínculo e a sensação de que ninguém percebeu a ausência. É aí que uma operação próxima do cliente pode agir muito bem”, afirma.
Academia- Ser independente não significa ser amador
A força do relacionamento, porém, não elimina a necessidade de profissionalização. Anderson alerta que o discurso de “academia de bairro” não pode servir para justificar ausência de indicadores, planejamento financeiro, processos comerciais ou gestão de equipe.

“Pequena e amadora são coisas completamente diferentes. Uma academia pode ter uma unidade e uma gestão extremamente profissional. Precisa conhecer custo por aluno, taxa de ocupação, retenção, inadimplência, conversão e capacidade de investimento. A diferença é que ela pode combinar essa gestão com uma relação muito mais próxima do cliente”, explica.
O cenário internacional também indica expansão simultânea de diferentes formatos. O relatório global de 2025 da HFA apontou crescimento em modelos que vão das academias de baixo custo e clubes 24 horas aos estúdios boutique e operadores premium. Entre os gestores pesquisados, 91% esperavam crescimento de receita naquele ano.
Para Moraes, essa diversidade ajuda a derrubar a ideia de que haverá um único modelo vencedor. “Não acredito que o futuro seja todo de grandes redes nem todo de academias independentes. Vão sobreviver propostas diferentes para consumidores diferentes. O que tende a perder espaço é a academia sem identidade, que não consegue ser barata como uma rede de escala, nem especializada, nem próxima, nem oferecer uma experiência diferente”, avalia.
Marca local também pode ser patrimônio
Outro diferencial está na liberdade para construir posicionamento e identidade próprios. Para Anderson, uma academia independente não precisa necessariamente perseguir dezenas de unidades para ser considerada um negócio bem-sucedido.

“Existe uma obsessão por escala que nem sempre faz sentido. Uma academia pode dominar determinada região, ser referência para um público específico, ter boa margem, retenção alta e uma marca muito respeitada. Isso é construção de patrimônio também”, afirma.
Nesse cenário, experiência, relacionamento, especialização, adaptação local, agilidade e formação de comunidade deixam de ser características secundárias para se transformar em elementos centrais do modelo de negócio.

“O crescimento das redes aumentou a régua. E isso é bom para o mercado. O independente que continuar administrando academia como se administrava 15 anos atrás provavelmente terá dificuldades. Mas quem profissionalizar a gestão e souber explorar aquilo que a escala não entrega com a mesma facilidade continua tendo espaço. A questão não é ser grande ou pequeno. É saber por que o cliente escolhe você e, principalmente, por que continua com você”, conclui Anderson.
Sobre Anderson Moraes
Anderson Moraes é empresário, consultor e especialista em negócios fitness, com atuação na implantação, estruturação e crescimento de academias em todo o Brasil. Fundador da Moraes Trainer & Business e CEO da Seven7Play, atua com planejamento estratégico, viabilidade financeira, estrutura operacional, gestão, seleção de equipamentos e desenvolvimento de processos para operações fitness.
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