Internação de mulher acende alerta para os riscos do uso de “canetas emagrecedoras” ilegais e sem controle
Médico George Mantese explica riscos e orienta como paciente pode se proteger
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A internação em estado grave de uma mulher de mulher de 42 anos, em Belo Horizonte, reacendeu o alerta de especialistas e de órgãos como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) sobre os riscos do uso de medicamentos para emagrecimento comercializados de forma ilegal no Brasil. A paciente teria aplicado uma chamada “caneta emagrecedora” adquirida sem prescrição médica, vinda do Paraguai, e sem qualquer acompanhamento profissional.
Os primeiros sintomas teriam surgidos logo após a aplicação da substância, com dores abdominais intensas. Com a evolução do quadro, a paciente passou a apresentar complicações neurológicas graves, que culminaram em paralisia total. Há suspeita clínica, ainda em investigação, de desenvolvimento da Síndrome de Guillain-Barré, uma doença neurológica rara, de origem autoimune, na qual o sistema imunológico passa a atacar os nervos periféricos, podendo comprometer movimentos, sensibilidade e até funções vitais, como respiração e deglutição.
O produto utilizado, conhecido comercialmente como Lipoless, não possui registro na Anvisa e é divulgado informalmente como um suposto análogo da tirzepatida, substância presente em medicamentos aprovados para o tratamento do diabetes tipo 2 e que também passaram a ser utilizados, de forma controlada, no manejo da obesidade, como o Mounjaro.

“O grande perigo dessas canetas ilegais não está apenas no nome que elas carregam, mas no fato de ninguém saber exatamente o que há dentro delas”, explica o médico George Mantese, especialista em Medicina de Família e Comunidade. “O paciente acredita que está usando algo semelhante a um medicamento aprovado, quando, na prática, pode estar injetando uma substância completamente diferente no próprio corpo, sem qualquer controle de qualidade ou segurança.”
Nos últimos meses, a Anvisa determinou a suspensão da circulação de diversas canetas emagrecedoras amplamente divulgadas na internet e nas redes sociais, todas sem registro sanitário no Brasil. Entre os produtos citados estão Lipoless, T.G. 5, Tirzazep e outros apresentados como agonistas de GLP-1, frequentemente associados a promessas de emagrecimento rápido e sem riscos.
Apesar das proibições, esses itens continuam sendo amplamente oferecidos em sites, aplicativos de mensagens e plataformas digitais. Relatos de pessoas que afirmam ter emagrecido após o uso desses produtos circulam com facilidade, reforçando uma falsa sensação de eficácia e segurança — um dos aspectos mais perigosos desse mercado clandestino.
“É fundamental entender que emagrecer não significa, automaticamente, que algo está funcionando do ponto de vista médico”, alerta George Mantese. “A perda de peso pode acontecer por inúmeros mecanismos, inclusive por vias extremamente nocivas. O corpo pode emagrecer por desidratação severa, perda acelerada de massa muscular, toxicidade metabólica ou por processos inflamatórios sistêmicos. Isso não é tratamento, é um sinal de desequilíbrio.”
Segundo o médico, um dos maiores riscos dessas canetas ilegais é justamente a imprevisibilidade das substâncias utilizadas. “Não estamos falando apenas de análogos de GLP-1. Já existem relatos de produtos clandestinos que contêm hormônios, agentes hipoglicemiantes potentes e outras substâncias que jamais deveriam ser usadas sem indicação e acompanhamento médico”, ressalta.
Ele alerta que algumas dessas substâncias podem até levar à perda de peso no curto prazo, mas às custas de riscos severos à saúde. “Existem compostos que podem provocar quedas perigosas da glicose, alterações cardíacas, convulsões, náuseas intensas, diarreia persistente e, em situações mais graves, lesões neurológicas potencialmente irreversíveis. Em alguns casos, o que começa como uma busca estética pode terminar em internação prolongada ou sequelas permanentes”, afirma Mantese.
Para o especialista, o caso da paciente internada em Belo Horizonte ilustra um erro comum: associar resultado visível à segurança. “Não é porque alguém emagreceu que aquilo é bom ou que deu certo. Muitas vezes, o emagrecimento rápido é o primeiro sinal de que algo está profundamente errado”, pontua.
Obesidade é doença crônica e exige tratamento médico
Especialistas reforçam que a obesidade é reconhecida como uma doença crônica e multifatorial, que exige abordagem estruturada, baseada em avaliação clínica, mudanças de estilo de vida, acompanhamento contínuo e, quando indicado, uso de medicamentos regularizados e prescritos. O problema, segundo Mantese, não é o tratamento médico da obesidade, mas a banalização do uso de fármacos potentes fora do sistema regulatório.
Como o paciente pode se proteger
A Vigilância Sanitária orienta que a população utilize apenas medicamentos prescritos por profissionais habilitados e adquiridos em farmácias regularizadas. Denúncias sobre comercialização irregular podem ser feitas por meio dos canais oficiais das prefeituras ou diretamente aos órgãos de fiscalização sanitária.
“O emagrecimento saudável é um processo médico, não um experimento. Quando alguém compra uma caneta ilegal, não está escolhendo um tratamento alternativo. Está assumindo um risco real, muitas vezes sem ter dimensão das consequências”, alerta o médico George Mantese.

George Mantese, especialista em Medicina de Família e Comunidade
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