(crédito da foto: Divulgação Recode)

Mulheres indígenas desenvolvem plataforma de IA para preservar cultura e gerar renda para famílias

IA Arandu integra a plataforma Círculos Indígenas, que une saber ancestral, tecnologia e autonomia econômica.

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Janeiro de 2026 – A tradição que sustenta a preservação cultural dos povos indígenas agora também impulsiona a inovação tecnológica. Mulheres de diversas etnias se uniram para criar uma Inteligência Artificial (IA) pensada e administrada exclusivamente por elas: a Arandu. A ferramenta, cujo nome significa “sabedoria” em tupi-guarani, integra a plataforma Círculos Indígenas, que reúne múltiplas funcionalidades e atua como uma espécie de guardiã digital dos valores, saberes e tradições dos povos originários do Brasil.

Na plataforma que abriga a IA Arandu, as participantes produzem, editam, distribuem conteúdos, registram saberes tradicionais em formato digital e comercializam produtos e criações desenvolvidas nas aldeias, fortalecendo a autonomia econômica das comunidades. A iniciativa, construída de forma coletiva ao longo de 2025, a partir de uma convocação da ONG Recode, nasce da necessidade de fortalecer redes de apoio de mulheres indígenas, preservar conhecimentos ancestrais e ampliar suas vozes, integrando a tecnologia de maneira respeitosa, sem romper com as tradições.

Atualmente, o grupo está distribuído pelo Distrito Federal e por 12 estados brasileiros: Acre, Amazonas, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e Tocantins. A meta é alcançar 240 participantes até 2026. As inscrições para a terceira turma, com 160 novas vagas, já estão abertas (clique aqui).

“As mulheres indígenas enfrentam, historicamente, barreiras estruturais de acesso à tecnologia, às oportunidades econômicas e aos meios de comunicação. Esse movimento nasce para reverter esse cenário e garantir que essas vozes sejam protagonistas de suas próprias narrativas”, afirma Rodrigo Baggio, fundador e CEO da ONG Recode. Segundo ele, o grupo reúne representantes dos povos Pataxó, Pataxó Hãhãhãe, Guajajara, Terena, Apurinã, Juruna (Yudjá), Wapichana, Boe Bororo e Kaxinawá, entre outros, fortalecendo uma rede de comunicadoras que atua a partir de diferentes territórios, línguas e tradições.

Mulheres indígenas desenvolvem plataforma de IA para preservar cultura e gerar renda para famílias

Uma voz da comunidade

Uma dessas vozes é a de Júlia Tainá, de 38 anos, participante do projeto. Para ela, que é do Acre, a iniciativa representou um verdadeiro despertar — um caminho de reconexão com a própria história e de construção de um espaço seguro de expressão.

“Dos meus quatro avós, três eram indígenas e um era espanhol, uma típica história brasileira. Meus avós indígenas eram das etnias Manchineri, Pataxó e Tupinambá. Nasci mais próxima da minha história Manchineri, aqui no Acre. Sou uma indígena em contexto urbano, não por opção, mas por conta da trajetória da minha família. Ao participar de projetos como este, ouvindo outras histórias e realidades, fui me sentindo pertencente e segura. Era como estar em um território, ainda que virtual, onde eu podia, de fato, me comunicar”, celebra Júlia.

Essa vivência moldou sua visão sobre o papel da tecnologia como ferramenta de fortalecimento cultural. “A IA ajuda a organizar nossas ideias, na descrição das peças, na forma de contar a história, de compartilhar o que produzimos. Ela nos apoia a estruturar nossas falas e a aprender a nos comunicar do nosso jeito. Porque é dessa forma que conseguimos impactar o futuro, sem abrir mão de quem somos.”

Autonomia e geração de renda

Na plataforma digital, as participantes têm acesso a ferramentas intuitivas para criação, edição e distribuição de conteúdos em texto, vídeo, áudio e formatos visuais. O ambiente também funciona como um acervo digital voltado ao registro e à valorização de saberes tradicionais, sempre com respeito aos contextos culturais e aos direitos coletivos.

Outro destaque é a possibilidade de geração de renda, por meio de espaços que ainda estão sendo aprimorados e que vão funcionar como um e-commerce para a comercialização de produtos e conteúdos criados nas aldeias. Já a Arandu oferece suporte à tradução entre línguas indígenas e o português, além de sugestões de formatos de conteúdo e análises de engajamento, sempre com uso ético e supervisionado.

“A Arandu nasce do encontro entre tecnologia e conhecimento ancestral, mostrando que é possível desenvolver Inteligência Artificial de forma ética, diversa e alinhada às realidades dos povos indígenas”, conclui Rodrigo.

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