Tireoide afeta 60% da população brasileira
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A tireoide, pequena glândula localizada na base do pescoço, desempenha papel central na regulação do metabolismo energético, mantém importante relação com o sistema cardiovascular, o eixo neuropsíquico e a saúde óssea. Estima-se que os distúrbios tireoidianos, incluindo hipotireoidismo, hipertireoidismo e nódulos tireoidianos, estejam entre as endocrinopatias mais prevalentes na prática clínica, com impacto significativo na saúde pública.
Um dos desafios, particularmente na atenção primária, é o reconhecimento das doenças da tireoide, já que as manifestações clínicas frequentemente são inespecíficas e, por vezes, atribuídas a outras comorbidades. São comuns as queixas, como: cansaço persistente, variação ponderal não intencional, dor articular, alterações de humor, queda de cabelo e intolerância ao frio ou ao calor. São sinais e sintomas que podem ser atribuídos a disfunções na produção de hormônios tireoidianos.
O Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), uma coorte multicêntrica que acompanha mais de 15 mil adultos brasileiros, demonstrou que os distúrbios da tireoide são eventos frequentes na população, com incidência expressiva de hipotireoidismo e hipertireoidismo, inclusive nas formas subclínicas, ao longo de poucos anos de seguimento. Esses achados reforçam que alterações da função tireoidiana não são raras nem restritas a grupos muito específicos, mas um problema de saúde pública com impacto potencial sobre o risco cardiovascular, a saúde óssea e a qualidade de vida, exigindo do médico generalista um olhar sistemático para a identificação precoce e o manejo adequado dessas condições.
“As disfunções tireoidianas, como hipotireoidismo ou hipertireoidismo, nem sempre têm diagnóstico fácil; devemos lembrar da possibilidade de doenças da tireoide, pautada em uma boa avaliação clínica, no dia a dia do consultório”, comenta o endocrinologista Adriano Cury, do Alta Diagnósticos, marca premium da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil. “O olhar atento do médico generalista, aliado à solicitação adequada e racional de exames-chave para o diagnóstico das tireoidopatias, é crucial para confirmar a suspeita diagnóstica de doenças da tireoide.”

Relevância clínica das doenças tireoidianas
Quando não tratadas a longo prazo, as disfunções tireoidianas, mais especificamente no hipertireoidismo, em pacientes com idade superior a 65 anos, associam-se a complicações cardiovasculares, como a fibrilação atrial, piora da insuficiência cardíaca. Quanto ao hipotireoidismo, inclusive na forma subclínica, relaciona-se a alterações do perfil lipídico, variações da pressão arterial (disfunção endotelial) e, em subgrupos, a maior risco de eventos cardiovasculares.
Quando pensamos na saúde óssea, tanto o hipertireoidismo manifesto quanto o hipertireoidismo subclínico estão associados à redução da densidade mineral óssea e a um maior risco de fraturas, particularmente em mulheres na pós-menopausa.
Além da disfunção na produção de hormônios tireoidianos, a presença de nódulos tireoidianos e sua avaliação são frequentes na prática ambulatorial, destacando que apenas uma minoria desses nódulos corresponde a câncer de tireoide, cuja incidência tem aumentado globalmente, em grande parte relacionada ao maior rastreio por métodos de imagem e ao diagnóstico de microcarcinomas.
Grupos prioritários na atenção primária
Embora qualquer indivíduo possa desenvolver doença tireoidiana, alguns grupos demandam vigilância mais sistemática pelo médico:
Mulheres em idade reprodutiva e gestantes: a disfunção tireoidiana, mesmo subclínica, pode associar-se a desfechos obstétricos adversos e a potenciais impactos no desenvolvimento neurocognitivo fetal, razão pela qual diretrizes recomendam, no mínimo, uma estratégia de rastreamento direcionada a gestantes de alto risco.
Pacientes com doenças autoimunes: indivíduos com diabetes tipo 1, lúpus, artrite reumatoide e outras condições autoimunes têm maior prevalência de tireoidite autoimune e de disfunção tireoidiana, o que justifica a avaliação periódica do TSH.
Pessoas com sintomas persistentes de difícil explicação — fadiga intensa, instabilidade ponderal, depressão ou ansiedade refratárias, palpitações, taquiarritmias inexplicadas, hipotensão ortostática, constipação importante ou queda de cabelo acentuada — devem suscitar suspeita de distúrbio da tireoide, sobretudo se há alterações no exame clínico.
“O rastreamento da função tireoidiana em alguns grupos de pacientes não deve ser visto como um exame de rotina sem propósito, mas como uma oportunidade de diagnóstico e acompanhamento de uma condição que, bem manejada, impacta a qualidade de vida das pessoas”, reforça o Dr. Cury.
Papel dos exames laboratoriais e de imagem
Na prática do consultório, a avaliação laboratorial tipicamente se inicia com a dosagem de TSH, complementada por T4 livre (e, em cenários específicos, T3) para caracterizar o fenótipo clínico e subclínico da disfunção. Em pacientes com suspeita de etiologia autoimune, a pesquisa de anticorpos antitireoidianos (anti-TPO e, quando indicado, anti-Tg) auxilia na confirmação de tireoidite de Hashimoto e o TRAb é fundamental para confirmar a doença de Graves, principal causa de hipertireoidismo em adultos e na faixa etária pediátrica.
Do ponto de vista estrutural, a ultrassonografia de alta resolução é o método de escolha para a avaliação da anatomia tireoidiana, a caracterização de bócio difuso, alteração da textura do parênquima tireoidiano (relacionada à autoimunidade), a identificação de nódulos quando há suspeita no exame físico e a estratificação do risco de malignidade com base em padrões ecográficos, lembrando que ultrassonografia deve seguir sistemas padronizados de estratificação de risco (TI‑RADS/ATA).
Em nódulos com características suspeitas ou com tamanho acima de determinados cortes, as diretrizes recomendam punção aspirativa por agulha fina (PAAF) guiada por ultrassom como ferramenta-chave para o diagnóstico dos nódulos benignos (grande maioria) ou, eventualmente, malignos. A PAAF é uma etapa fundamental na tomada de decisão entre seguimento clínico e, de acordo com a classificação citopatológica e as características do paciente e ultrassonográficas, uma possível intervenção cirúrgica.
“O médico tem hoje à disposição ferramentas laboratoriais e de imagem assertivas para o diagnóstico muito bem validado”, comenta o Dr. Cury. “O ponto crítico é lembrar e suspeitar da doença tireoidiana. A triagem da disfunção na produção de hormônios tireoidianos, a verificação do TSH já é suficiente. De acordo com a anamnese e o exame físico, fundamentar a solicitação adequada da ultrassonografia e da avaliação especializada, evitando tanto o subdiagnóstico quanto o excesso de exames sem indicação clara.”
Estratégias práticas para o diagnóstico e seguimento clínico
Para o médico generalista, algumas estratégias simples ajudam a incorporar o cuidado com a tireoide à rotina assistencial:
- Incluir TSH (com T4 livre, quando indicado) na investigação de queixas inespecíficas, como fadiga, alterações de peso e sintomas relacionados à saúde mental, e especialmente atenção a pacientes com histórico de doenças autoimunes.
- Solicitar avaliação tireoidiana em gestantes com fatores de risco descritos nas diretrizes das sociedades científicas como a SBEM (história pessoal ou familiar de doença tireoidiana, diabetes tipo 1, outras doenças autoimunes, bócio, uso prévio de radioiodo ou cirurgia cervical), considerando o impacto materno-fetal de disfunções não diagnosticadas.
- Valorizar achados clínicos de bócio, nódulos palpáveis ou linfonodomegalias cervicais, encaminhando para ultrassonografia e, quando apropriado, para avaliação do endocrinologista, a fim de definir a necessidade de PAAF.
- Reforçar mudanças de estilo de vida que protejam contra o risco cardiometabólico global – controle do peso, cessação do tabagismo, manejo da hipertensão e da dislipidemia – que se somam aos benefícios do controle adequado da função tireoidiana.
“Quando a suspeita é levantada, o caminho diagnóstico está bem estruturado, permitindo um planejamento terapêutico adequado para a maioria dos pacientes com doença tireoidiana, visando ao menor impacto possível no seu cotidiano”, conclui o Dr. Adriano Cury.
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