Pessoas trans ainda enfrentam barreiras para preservar a fertilidade

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Muitos jovens transgêneros enfrentam uma escolha delicada: iniciar a hormonização e cirurgias de afirmação de gênero ou preservar a possibilidade de ter filhos no futuro. É uma decisão carregada de incertezas, medos e sonhos, mas que ainda é cercada de silêncio e desinformação. Estudos indicam que cerca de 50% das pessoas trans e de gênero diverso desejam ter filhos biológicos, mas apenas 10% procuram preservar a fertilidade antes da transição1.

No Dia Nacional da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, especialistas reforçam a importância de discutir a preservação da fertilidade desde o início da jornada de transição. “A jornada de transição é altamente individual. Nem todos têm os mesmos desejos ou acesso às intervenções médicas. Durante o processo de avaliação com equipes multiprofissionais, é fundamental esclarecer os impactos das intervenções na fertilidade e as opções disponíveis”, afirma Nanci Utida, Diretora Associada de Assuntos Médicos da Organon Brasil. Segundo a especialista, o aconselhamento sobre preservação da fertilidade deve ocorrer antes do início da hormonização ou de qualquer cirurgia.

O impacto da hormonização na fertilidade é significativo. Em homens trans, o uso de testosterona pode suprimir a ovulação e induzir amenorreia, enquanto em mulheres trans, o estrogênio reduz a produção de espermatozoides. “Em muitos casos, os efeitos podem ser parcialmente reversíveis, mas não há garantia de retorno completo da fertilidade. Por isso, é importante discutir a preservação antes de iniciar os hormônios”, alerta Utida.

Atualmente, existem técnicas que permitem manter a chance de ter filhos biológicos. Homens trans podem recorrer à criopreservação de óvulos, obtidos por estimulação ovariana; mulheres trans podem optar pela criopreservação de espermatozoides, que pode ser realizada antes do início da hormonização. A necessidade de interromper temporariamente os hormônios depende do tipo de procedimento e varia de pessoa para pessoa.

Embora falar sobre parentalidade não devesse ser tabu, muitas vezes o tema é negligenciado. “Há uma confusão entre identidade de gênero e capacidade reprodutiva. Pessoas trans podem ter filhos biológicos ou não biológicos, por meio de adoção ou guarda, mas essa possibilidade ainda é pouco abordada por falta de informação”, explica Utida.

No Brasil, os desafios vão além do tabu: os procedimentos de preservação de fertilidade ainda são muito restritos no SUS e não são cobertos pela maioria dos planos de saúde. “Além disso, exames como ultrassom transvaginal ou coleta de sêmen podem gerar desconforto intenso, especialmente sem acolhimento adequado”, completa a especialista.

“O mais importante é que cada pessoa tenha acesso à informação e possa tomar decisões conscientes sobre sua trajetória reprodutiva. Não existe caminho único, nem obrigação de preservar a fertilidade. Garantir que pessoas trans conheçam essas opções é uma forma de ampliar a autonomia, respeitar decisões individuais e promover saúde reprodutiva inclusiva”, conclui Nanci Utida.

Referência:

  1. Fertility care in transgender and gender-diverse individuals: the possibility of oocyte and sperm cryopreservation after medical transition – ScienceDirect

Pessoas trans enfrentam barreiras para preservar a fertilidade

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