O luto que se tornou luta pra mãe de Nicolly Pogere
Pit Magrin batalha por Justiça no caso ocorrido em Hortolândia e mudanças em leis através de abaixo-assinados, para endurecer legislação contra crimes cruéis cometidos por adolescentes
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O luto de Priscila Franciele Magrin, a Pit Magrin, pela perda brutal da filha Nicolly Fernanda Pogere, aos 15 anos de idade no dia no dia 18 de julho do ano passado, só não é maior do que a determinação dela na luta para que o crime bárbaro contra a jovem em Hortolândia se torne um marco contra a violência, em especial às mulheres.
A reportagem do Novo Momento esteve nesta segunda-feira (16) na residência de Pit Magrin e do marido. A mãe de Nicolly Pogere falou a respeito do esforço em conseguir assinaturas para propor mudanças em leis nacionais e a responsabilização de plataformas digitais que abrigam grupos extremistas.

Feminicídio
Pit Magrin busca justiça após o brutal feminicídio de sua filha, morta no dia 14 de julho de 2025 e encontrada desmembrada no dia 18 em um parque de Hortolândia. Os autores do crime, que confessaram a autoria à Polícia Civil, foram o então namorado da jovem, de 17 anos, e uma garota de 14, que também se relacionava com o garoto.
Devido à limitação de 3 anos de internação para menores infratores no Brasil, a mãe clama por mudanças na legislação – o que vem sendo chamado de “Lei Nicolly Pogere” – para punições mais severas a adolescentes envolvidos em crimes hediondos.
“Não dá pra eles ficarem um, dois ou no máximo três anos internados e depois serem ressocializados. Pelas características do crime são psicopatas e cruéis, que podem voltar a cometer crimes do tipo convivendo em sociedade”, explica Pit Magrin.

Acompanha
Ela conta que Nicolly era próxima da família do adolescente, então namorado de sua filha. Pit afirma que supervisionava as visitas do jovem à sua casa. A princípio, Nicolly conheceu o garoto quando ainda eram crianças e ambos moravam em Hortolândia.
No entanto, quando a menina ficou mais velha e se mudou para Mococa, eles mantiveram um relacionamento à distância e passavam tempos juntos quando a adolescente ia visitar o avô. “O pessoal fala muita bobagem na internet, com julgamentos morais e hipocrisia. Eu sempre acompanhei tudo da minha filha”, garante.

Crime
Além disso, a mãe de Nicolly revela que conheceu “podres” do então namorado depois que a filha desapareceu. Ela saiu da casa dos avós alegando que iria buscar umas chaves que estavam lá e nunca mais voltou. Pela brutalidade do crime, a mãe classifica os dois jovens de “monstros manipuladores e psicopatas”.
Conforme a Polícia Civil, os adolescentes confessaram o crime cometido com ‘riqueza de detalhes’ depois de serem apreendidos. Seguindo o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), ambos tiveram internação provisória decretada e foram encaminhados para unidades da Fundação Casa.
Bastante ativa nas redes sociais para pedir justiça pela filha, Pit Magrin também busca mobilização em torno do projeto que leva o nome da filha e pede mudanças na legislação brasileira. Ela informou que está espalhando cartazes em busca de novas assinaturas para a proposta e convocou apoiadores a ajudarem a campanha a atingir a meta de 20 mil assinaturas até 28 de março.
Quando tudo aconteceu, Pit Magrin já estava grávida do irmão de Nicolly. Agora, no 9º mês de gravidez, ela continua firme e lutando por Justiça. O novo amor apenas a motiva para seguir em frente e por um legado de Nicolly. Pelo texto apresentado pela família e apoiadores, a proposta de mudanças na legislação brasileira possui dois eixos.

Legislação
O primeiro é uma reforma penal, com previsão de legislação mais rígida, internação psiquiátrica em segurança máxima para criminosos com psicopatia, perícias contínuas e impedimento de retorno à sociedade em determinados casos. “São para casos hediondos apenas, envolvendo crueldade. Como o que fizeram com a Nicolly”, esclarece.
O segundo ponto é a regulamentação da internet, com responsabilização de plataformas e indivíduos que propaguem ódio online, além de punições mais severas e regras voltadas também a empresas estrangeiras. Pit explica que os jovens acusados pelo crime utilizavam um grupo no Discord para propor o ‘desafio’ e depois informar o que foi realizado.
“É um absurdo. Muitas vezes utilizam jogos inocentes, como o Roblox, para atrair os jovens para esses grupos, onde centenas de pessoas exibem crimes bárbaros contra animais e seres humanos, além de desafios de automutilação, principalmente a meninas. Inclusive com transmissões ao vivo”, revela.

Plataformas
De acordo com a mãe de Nicolly, o Discord seria a mesma plataforma utilizada pelos jovens acusados de matar o cão Orelha recentemente e cujo caso mobilizou todo o país. Com isso, Pit Magrin mostra que ‘toda vida importa’ e que o caso envolvendo sua filha precisa servir de um marco contra a violência.
Na manhã desta segunda-feira (16) haviam 14.716 assinaturas. O prazo para conseguir adesão de 20.000 pessoas acaba no próximo dia 28 e, caso não consigam, o processo tem de ser recomeçado do zero para apresentação oficial no Senado Federal. “Estamos pedindo toda ajuda possível”, destaca.
Paralelamente, a mãe clama pela reabertura do caso policial. Em 6 de novembro passado Pit ingressou com uma queixa-crime apresentando novas provas e evidências que incriminariam familiares do jovem que matou sua filha, seja por acobertamento e até mesmo ajuda em fuga. “A Polícia (Civil) está a par de tudo. Queremos que sejam de alguma forma criminalizados”, detalha.
Outra questão ressaltada por ela é que a pauta está acima de bandeiras políticas e partidárias (“esquerda” ou “direita”). Segundo Pit Magrin, não se trata de redução da maioridade penal, como alguns pensam, mas sim o estabelecimento de penas mais duras a menores infratores que cometem crimes cruéis como este.

Machismo
“Vivemos infelizmente em uma sociedade machista e de muito ódio, principalmente contra mulheres. O pior é que estamos vendo jovens com uma mentalidade cruel dessas aparecendo e com a cabeça influenciada na internet”, pondera. “Aí o resultado são feminicídios e casos envolvendo até mesmo adolescentes”, acrescenta.
O enquadramento de plataformas digitais proporciona instrumentos para a Justiça cobrar das ‘big techs’ o banimento e não permitir esses grupos, que inclusive abrigam não apenas trocas de conversas, mas fotos, vídeos e até mesmo transmissões ao vivo de crueldades contra animais e seres humanos.
Pit Magrin revelou ainda que ela e o marido têm recebido ameaças – até de morte – de frequentadores de grupos. “Também estamos informando tudo para as autoridades policiais”, confirma. Ou seja, a mãe de Nicolly Pogere transformou o luto pela perda brutal da filha em uma luta para que o Brasil melhore e outras ‘Nicollys’ não sejam mais vítimas.
LINK PARA ASSINATURA
https://www12.senado.leg.br/ecidadania/visualizacaoideia?id=211607
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