A decisão da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de suspender temporariamente as transmissões ao vivo do Discord no Brasil colocou novamente em evidência o desafio que cresce junto com a expansão das plataformas digitais, de como equilibrar liberdade de comunicação, privacidade e proteção de crianças e adolescentes na internet.

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Discord

A medida preventiva foi determinada após investigações envolvendo um caso de morte de uma adolescente de 13 anos, que teria ocorrido em um contexto de exposição e incentivo a práticas de automutilação e suicídio dentro da plataforma. A determinação estabelece que o Discord interrompa o recurso de transmissões ao vivo até apresentar comprovações de que adotou mecanismos considerados suficientes para proteger usuários menores de idade.

Segundo informações divulgadas pela imprensa, a plataforma terá prazo de três dias úteis para cumprir a decisão, enquanto o processo de fiscalização continua em andamento. Caso sejam identificadas infrações, a legislação brasileira prevê possibilidade de aplicação de multas que podem chegar a R$ 50 milhões por infração, conforme previsto na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).

O episódio também amplia uma discussão sobre o funcionamento de ambientes digitais privados. Diferentemente de redes sociais abertas, o Discord reúne comunidades fechadas, servidores independentes e canais de comunicação por texto, voz e vídeo, características que tornam a moderação de conteúdos potencialmente nocivos um desafio técnico para empresas de tecnologia.

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Discord, origem e desvios

A plataforma, criada originalmente para comunicação entre jogadores, ganhou grande popularidade entre jovens e passou a ser utilizada para diferentes tipos de comunidades online. Dados divulgados sobre a empresa apontam que o serviço alcançou mais de 90 milhões de usuários ativos diariamente em 2025.

Para Lucas Paglia, advogado especializado em Direito Digital, cibersegurança, proteção de dados e compliance regulatório, o caso representa uma mudança importante na forma como as plataformas serão cobradas no Brasil. “A discussão deixa de ser apenas sobre o conteúdo publicado pelos usuários e passa a envolver o dever das empresas de criarem ambientes digitais mais seguros, principalmente quando existe possibilidade de participação de crianças e adolescentes”, avalia.

Segundo o especialista, a aplicação de medidas preventivas pela ANPD demonstra que a proteção de dados pessoais está cada vez mais conectada à segurança dos usuários. “Dados de idade, identificação de usuários, mecanismos de denúncia e ferramentas de controle parental passaram a ser elementos fundamentais para avaliar se uma plataforma está cumprindo seu papel de proteção”, explica.

A decisão ocorre em um momento de maior pressão regulatória sobre empresas digitais. Em 2026, a ANPD publicou orientações para mecanismos de aferição de idade no ambiente digital, relacionadas às exigências do ECA Digital, estabelecendo parâmetros para que serviços tecnológicos adotem medidas de proteção para crianças e adolescentes.

O próprio Discord informou anteriormente que implementaria mudanças no Brasil, incluindo configurações de segurança adicionais, restrições para conteúdos classificados por idade e mecanismos de verificação etária.

O caso abre um debate que vai além da suspensão de uma ferramenta específica. Quem deve ser responsável pela segurança de menores no ambiente online? A resposta envolve uma combinação entre empresas de tecnologia, órgãos reguladores, famílias e educação digital dos próprios usuários.

“A internet não pode ser tratada como um espaço sem regras, mas também é necessário discutir soluções que sejam tecnicamente eficientes e proporcionais. O desafio é criar mecanismos que reduzam riscos sem comprometer direitos fundamentais dos usuários”, conclui Lucas Paglia.

Sobre

Lucas Paglia é advogado especializado em direito digital, com foco em cybersegurança, proteção de dados e compliance regulatório. Presidente da Rede Governança Brasil (RGB) e uma das principais referências nacionais em proteção de dados, governança e cibersegurança, com especialização pela Universidade de Harvard. Também é membro da Associação Brasileira de Inteligência Artificial e possui forte atuação institucional em entidades da América Latina. Como educador, já formou mais de 4 mil alunos em proteção de dados, é professor em instituições como Puccamp e SEBRAE Nacional.

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