Além da linha de chegada: como atletas de alta performance transformam experiência em excelência nos negócios?
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Existe uma ideia ultrapassada de que a carreira de um atleta termina quando acaba o jogo. Na prática, pode ganhar novos caminhos. O que muda é o campo em que essa experiência passa a ser aplicada.
É possível levar para outras atividades boa parte do repertório construído no esporte de alta performance: disciplina, capacidade de ler cenários, tolerância à pressão, rapidez para tomar decisões e atenção aos detalhes. São competências que não ficam restritas à quadra, ao campo ou à pista. Quando bem aproveitadas, podem se transformar em ativos importantes para uma nova carreira.
Tom Brady é um exemplo. O ex-jogador de futebol americano não deixou para trás apenas sete títulos do Super Bowl. Ao longo da transição para os negócios e para a mídia, levou consigo uma reputação construída durante décadas de carreira. Sua plataforma Autograph captou US$ 170 milhões em 2022. Brady também assinou um contrato de US$ 375 milhões por dez anos com a Fox Sports e teve aprovada uma participação de 5% nos Las Vegas Raiders. É um caso de como a autoridade construída no esporte pode abrir espaço em diferentes mercados.
Ronaldo Nazário seguiu um caminho semelhante no mercado financeiro. A Galácticos Capital nasceu da união entre a Galapagos Capital e a R9 Gestão Patrimonial e Financeira, com R$ 1 bilhão sob gestão e a meta anunciada de chegar a R$ 25 bilhões em cinco anos. Em maio de 2025, a gestora já divulgava R$ 1,5 bilhão, um avanço nominal de 50% sobre o valor inicial. Nesse caso, a experiência de Ronaldo e sua proximidade com o universo dos atletas também se tornam parte da estratégia do negócio.
Outro exemplo é a Ultra Sports, canal e plataforma multiplataforma que tem Ítalo Ferreira e Sandro Dias entre os sócios. Com estreia prevista para janeiro de 2027, operação 24 horas e distribuição em TV paga, plataformas FAST, YouTube e Disney+, o projeto pretende atuar em diferentes frentes do mercado de surfe e skate, estimado por seus executivos em mais de R$ 8 bilhões. O investimento no projeto não foi divulgado, mas a dimensão da oportunidade ajuda a explicar o interesse de atletas e empresários nesse mercado.
O esporte oferece uma formação que poucas escolas de negócios conseguem reproduzir. Um atleta de alto nível aprende a lidar com pressão, resultado, competição, trabalho em equipe e, principalmente, com a necessidade de ajustar a estratégia quando algo não funciona. Ao longo dos anos, também constrói reputação, relacionamento, audiência e uma comunidade de pessoas que acompanham seu trabalho.
Nada disso, porém, garante o sucesso de uma empresa. A fama pode abrir portas, mas é preciso transformar essa visibilidade em produto, marca, gestão, distribuição e confiança. É nessa etapa que o repertório construído no esporte precisa encontrar novas competências.
Por isso, a transição de carreira de um atleta não precisa ser vista apenas como uma mudança de profissão. Pode ser também uma forma de aproveitar conhecimentos e habilidades desenvolvidos ao longo de anos de treinamento e competição.
A carreira esportiva pode chegar ao fim. O repertório construído nela, não. Quando é bem transferido para outros contextos, ele pode continuar gerando valor muito depois da última competição.
*Rodrigo Cerveira é sócio e CMO da Vórtx e co-fundador do Strategy Studio. Com 30 anos de experiência em estratégia, liderança e desenvolvimento de negócios globais e locais, é especializado em construção de marca e estratégia criativa. É formado em Publicidade e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero, com Extensão em Gestão pelo INSEAD (Instituto Europeu de Administração de Negócios).
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