População idosa cresce e aumenta a busca por cuidados dentro de casa
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O Brasil está envelhecendo em velocidade inédita. Segundo projeções do IBGE, a população com 60 anos ou mais deve mais que dobrar nas próximas décadas, passando de 34,2 milhões de pessoas em 2024 para quase 69 milhões em 2054.
A transformação já produz efeitos dentro das famílias. Com o aumento da expectativa de vida e a redução do tamanho dos núcleos familiares, cresce o número de idosos que precisam de acompanhamento contínuo para atividades do dia a dia, ao mesmo tempo em que diminui a quantidade de parentes disponíveis para assumir essa responsabilidade.
Dados do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) mostram que a necessidade de ajuda aumenta significativamente após os 75 anos. Entre idosos com limitações funcionais, mais da metade daqueles com 80 anos ou mais depende de auxílio para realizar tarefas cotidianas.
Na prática, porém, o cuidado ainda recai majoritariamente sobre familiares. O próprio IEPS aponta que, na maior parte dos casos, filhos, cônjuges ou outros parentes assumem a responsabilidade por acompanhar consultas, administrar medicamentos e auxiliar em atividades básicas.
Desafio tende a se intensificar nos próximos anos.
“O Brasil está entrando em uma fase em que o cuidado de longa duração deixa de ser uma questão exclusivamente familiar e passa a ser uma questão social e econômica”, afirma Renato Tilkian, um dos fundadores da Sanii, empresa especializada em gestão de cuidado domiciliar para idosos.
O crescimento da demanda também impulsiona um mercado ainda pouco estruturado no país. Empresas especializadas em cuidado domiciliar têm investido em processos de seleção, treinamento e acompanhamento de profissionais para responder a uma necessidade que tende a aumentar nas próximas décadas.
Nos Estados Unidos, startups voltadas à gestão do cuidado domiciliar anunciaram recentemente rodadas milionárias de investimento para desenvolver ferramentas baseadas em inteligência artificial. O objetivo não é substituir profissionais, mas automatizar tarefas administrativas, organizar escalas e melhorar a circulação de informações entre equipes de saúde.
No Brasil, iniciativas semelhantes começam a surgir.
A Sanii desenvolveu sistemas para seleção de cuidadores, gestão de escalas e acompanhamento da rotina assistencial. Segundo Michael Kapps, fundador da empresa e ex-empreendedor de saúde digital, a principal contribuição da tecnologia está na coordenação do cuidado.
“Existe uma enorme quantidade de informação que precisa circular entre familiares, cuidadores, enfermeiros e médicos. Quando essa comunicação falha, o cuidado perde qualidade. A tecnologia ajuda justamente a organizar essa rede.”
Além do atendimento direto às famílias, a empresa mantém parcerias com médicos, hospitais, clínicas e instituições voltadas ao cuidado de idosos que encaminham pacientes para acompanhamento domiciliar.
Para Angelina Clarke, também fundadora da companhia, a discussão deve ganhar relevância à medida que a população envelhece.
“Durante muito tempo, o debate sobre saúde esteve concentrado no hospital. Agora começamos a discutir como as pessoas vivem depois da alta, como envelhecem e quem estará disponível para cuidar delas.”
Especialistas afirmam que a expansão dos cuidados domiciliares deve acompanhar uma mudança cultural já observada em outros países. Com mais pessoas vivendo por mais tempo e desejando permanecer em suas próprias casas, cresce a busca por soluções capazes de oferecer suporte contínuo sem afastar o idoso de sua rotina e de seus vínculos familiares.
A tendência, dizem, é que o tema deixe de ser uma preocupação restrita às famílias e passe a ocupar espaço cada vez maior nas discussões sobre saúde pública, mercado de trabalho e organização social.
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